FecomercioSP celebra Acordo entre Mercosul e União Europeia  -

FecomercioSP celebra Acordo entre Mercosul e União Europeia 

Tratado, que ampliará espaço do Brasil no mercado internacional, pode acelerar a assinatura de novos acordos de livre-comércio com outros países
Crédito: Shutterstock

Em um contexto pressionado pelas incertezas dos Estados Unidos sob a gestão do presidente Donald Trump, da guerra comercial entre o país com a China e de transformações estruturais no comércio internacional, a assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) é um avanço importante para o País e para o bloco, pontua a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), uma das entidades mais entusiastas do tratado.

O acordo será positivo para o Brasil, já que a UE é o segundo maior parceiro comercial do País hoje, com uma corrente comercial de US$ 100 bilhões, respondendo por metade do estoque de investimento direto externo. A conjuntura atual só reforça, na verdade, o que a Federação tem argumentado há bastante tempo: apenas uma abertura comercial sólida permitirá ao Brasil aumentar a sua produtividade e a sua competitividade no cenário mundial. Em meio às tratativas do acordo, que duraram mais de duas décadas, atravessando governos distintos e mudanças importantes nos dois lados do Atlântico, sempre houve uma mobilização, por parte da FecomercioSP, em torno de uma abertura ampla, bem como que o tema fosse tratado como projeto de desenvolvimento nacional.“Permaneceremos atentos aos desdobramentos do acordo a partir de agora. A abertura comercial racional e gradual é inegociável”, diz Rubens Medrano, vice-presidente da Federação e que também preside o Conselho de Relações Internacionais da Entidade. “Estamos torcendo para que a ratificação ocorra de maneira célere, porque, além do potencial de alavancar a competitividade da economia brasileira, o acordo pode fazer com que outras negociações em curso avancem mais rapidamente”, continua.

Papel mundial do Brasil

É sintomático que, nos últimos 60 anos, a participação brasileira no mercado internacional permaneça pequena, flutuando em torno de 1,5% da composição da corrente do comércio global. A Organização Mundial do Comércio (OMC) afirma que o Brasil era, em 2023, apenas o 24º maior exportador do mundo e o 27ª colocado no ranking de importações. Tudo isso sendo detentor do nono maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta.

Isso acontece porque o Brasil se manteve inerte às transformações ocorridas no comércio internacional da década de 1990 em diante. Enquanto grande parte dos países reduziu tarifas de importação sobre bens intermediários e de capital, o que permitiu o surgimento das cadeias globais de valor e de produtos “made in world”, o País seguiu apostando no modelo de escalada tarifária, sob uma visão mercantilista de que exportar é positivo e importar, negativo. Isso culminou no “adensamento de cadeias domésticas”, quando um produto é todo produzido dentro de uma nação.

De maneira intrigante, as medidas tarifárias do governo de Trump nos Estados Unidos fizeram o mundo perceber, agora, como esse tipo de postura é nociva não só ao país que a adota, como também para as cadeias globais. Os norte-americanos elevaram tarifas para os aliados, como a própria UE, com quem assinou acordo para uma taxa de 15%, ou o Japão, enquanto elevou a taxas altíssimas para aqueles considerados “rivais” ou que apresentam riscos geopolíticos, como a China e o Brasil, o qual segue com uma tarifa de 40%.

O acordo Mercosul–UE prevê, justamente, uma liberalização tarifária ao longo de uma janela de até 15 anos, cobrindo cerca de 90% dos produtos intercambiados pelos dois lados. Alguns itens simplesmente não terão mais tarifas de entrada no mercado europeu, como frutas e bebidas, além de produtos manufaturados.

Poderia ser melhor

Apesar de positivo, o governo brasileiro voltou a negociar tópicos que já estavam concluídos desde 2019, como o capítulo de compras governamentais, adotando uma postura protecionista, assim como já havia sido feito com a retirada da oferta de adesão ao Acordo de Compras Governamentais da OMC.

A exclusão das compras realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do acordo é outra questão. Para a FecomercioSP, tratados internacionais de compras governamentais, além de propiciarem os benefícios de uma economia mais aberta (redução de custos, expansões da produtividade e da competividade e avanços tecnológicos), ainda resultam em melhorias de compras públicas, resultando em credibilidade e transparência — bem como representam uma ferramenta anticorrupção.

Ademais, o tratamento diferenciado do setor automotivo, que terá um período maior de adaptação às eliminações tarifárias, assim como uma possibilidade até de reaplicação de tarifas (hoje, na casa dos 35%), não é justa em alguns casos específicos. O setor já tem uma proteção relevante há cinco décadas, sem que isso resultasse em ganhos de produtividade na corrente internacional. Da forma como ficou, o consumidor brasileiro continuará sem acesso a modelos melhores de automóveis.

Como fica o acordo agora?

Com a formalização da assinatura, ocorrerá o processo de internalização, em que os dois blocos discutirão o texto em trâmites internos de aprovação. No caso brasileiro, o Executivo encaminhará para aprovação do Congresso Nacional. No caso da UE, o acordo precisará ser aprovado por 65% do Conselho Europeu, representando 55% da população dos países integrantes, e por maioria simples do Parlamento Europeu. A expectativa é que a UE conclua esse processo até abril. 

Uma vez realizadas essas etapas, as partes confirmam, por meio da ratificação, o compromisso de cumprirem os termos definidos no documento. O acordo prevê vigência bilateral, ou seja, caso a UE ratifique o acordo, o Brasil — ou qualquer outro país do bloco que já tenha concluído o processo de ratificação — poderá já aplicar os termos do acordo em suas relações comerciais. Em outras palavras, caso o País avance na ratificação, não será necessário aguardar a Argentina, o Paraguai e o Uruguai para começar a atuar dentro dos tópicos do acordo. O tratado entrará em vigor no primeiro dia do mês seguinte à ratificação.


Notícias Relacionadas
Read More

Pequenos negócios respondem por 72% dos empregos gerados no país

De acordo com Sebrae, o segmento de serviços, foi o que mais gerou empregos. Em junho, essas empresas criaram 87,2 mil novas vagas, seguidas pelas do comércio com 63,2 mil, indústria da transformação com 30,9 mil, construção civil com 26,4 mil e agropecuária com 5,9 mil.