Reforma tributária vai testar capacidade de as empresas se reinventarem -

Reforma tributária vai testar capacidade de as empresas se reinventarem

Se os desafios da reforma tributária são evidentes, as oportunidades são igualmente significativas e podem ser decisivas para empresas que enxergam a transição não como um obstáculo, mas como uma alavanca positiva de transformação.

Por Waine Peron, sócio-líder de impostos da EY Brasil

A reforma tributária pode catalisar a transformação empresarial em modelos de negócio mais rentáveis. Mas os dados da pesquisa da EY com 170 alunos do Indirect Tax Academy (ITA) – profissionais que atuam com temas tributários em suas organizações – demonstraram que, embora o tema esteja ganhando espaço nas discussões internas, ainda há uma distância significativa entre intenção e execução.

Um dos achados mais contundentes é que a reforma tributária ainda é tratada por muitas empresas como um “projeto paralelo”, conduzido por áreas técnicas e desconectado da estratégia corporativa. A baixa maturidade média na dimensão de Negócios (1,47 a 1,83) evidencia essa desconexão.

A dimensão Sistêmica mostra que há maior atenção à conformidade técnica, com médias acima de 1,83 em mapeamento de operações e requisitos da NF-e. No entanto, esse foco ainda é reativo. A ausência de planos robustos de transição sistêmica e o baixo índice de saneamento de cadastros (1,33) mostram que a automação tributária ainda não está sendo usada como ferramenta de inteligência em maior escala.

Por fim, a baixa maturidade na revisão de contratos (1,57) e na avaliação de preços pós-reforma (1,37) aponta para um risco silencioso: contingências fiscais e comerciais que podem emergir da falta de alinhamento entre cláusulas contratuais e nova estrutura tributária.

Se os desafios da reforma tributária são evidentes, as oportunidades são igualmente significativas e podem ser decisivas para empresas que enxergam a transição não como um obstáculo, mas como uma alavanca positiva de transformação.

A função fiscal, historicamente reativa, pode se tornar um centro de inteligência estratégica. A automação de cálculos, a integração com ERPs e o uso de inteligência artificial para simulações tributárias em tempo real permitem decisões mais rápidas e embasadas.

O fim dos incentivos ficais e a mudança da tributação da origem para o destino sugerem que se modele o futuro rapidamente. A baixa maturidade nas projeções financeiras (média de 1,5) aponta um gap que pode ser preenchido com ferramentas de análise preditiva de dados, capazes de simular diferentes combinações de carga tributária, regimes e créditos.

A nova lógica de tributação sobre o consumo exige uma revisão das cadeias de suprimento, especialmente em relação a incentivos fiscais regionais e regimes especiais. O redesenho dos footprints logísticos, com média de maturidade de apenas 1,47, é uma das maiores oportunidades de ganho operacional e fiscal.

Sua complexidade exige governança multidisciplinar. Criar comitês internos que reúnam áreas como fiscal, jurídico, financeiro, operações e tecnologia é essencial para garantir alinhamento, velocidade e consistência nas decisões.

Um roadmap para a maturidade tributária

A reforma representa uma mudança estrutural profunda no modelo de tributação sobre o consumo no Brasil. Para que essa transição não seja apenas uma adequação técnica, mas uma oportunidade de evolução estratégica, é essencial que as empresas adotem uma abordagem estruturada, com ações distribuídas ao longo do tempo.

No curto prazo, o foco deve estar em um diagnóstico detalhado dos impactos da reforma na operação e no fluxo de caixa. Isso inclui simulações de créditos e débitos, revisão de contratos, mapeamento de operações e saneamento de cadastros.

No médio prazo, é hora de implementar sistemas integrados e automação de cálculos e relatórios. A integração com ERPs, uso de IA para simulações e criação de comitês multidisciplinares são ações-chave.

No longo prazo, a área fiscal deve se transformar em um hub estratégico de dados. Isso envolve capacitação contínua, integração com planejamento financeiro e comercial, monitoramento regulatório proativo e promoção de uma cultura de inovação.

A reforma tributária é, sem dúvida, um dos marcos mais relevantes da história fiscal brasileira. Mas seu verdadeiro impacto não será medido apenas pela simplificação de tributos ou pela redistribuição de cargas, mas muito mais pela capacidade de as empresas se reinventarem, usando as novas regras para impulsionar o seu negócio.

Mais do que um desafio técnico, a reforma é uma oportunidade estratégica. Ela convida as empresas a repensarem seus modelos de negócio, a integrarem tecnologia à gestão fiscal, a fortalecerem sua governança e a transformarem dados fiscais em decisões.

O mercado está diante de uma janela única de evolução. Aqueles que souberem aproveitá-la estarão preparados para as novas regras de tributação e para um novo ciclo de crescimento, inovação e competitividade.

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