No terceiro trimestre do ano passado, dados da CNC – Confederação Nacional do Comércio indicavam que 77,3% das empresas do varejo ampliado enfrentavam dificuldades para contratar ou reter profissionais, o maior patamar dos últimos cinco anos.
O dado ganha ainda mais relevância quando analisado em conjunto com o nível de desemprego no país. Naquele momento, o Brasil registrava uma taxa próxima de 5,8%, uma das menores da série histórica recente.
Na prática, isso significa que o problema deixou de ser a falta de emprego e passou a ser a falta de profissionais com qualificação, interesse ou disponibilidade para atuar no varejo, um movimento que afeta diretamente a capacidade de expansão e operação das empresas.
Em setores como os supermercados, o quadro é ainda mais dramático. Segundo entidades do setor, 8 a cada 10 operações já enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores, especialmente em funções operacionais. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Erlon Ortega, a escassez de mão de obra tem se tornado um dos principais entraves para a expansão e até para o funcionamento pleno das lojas.
“Hoje, a maior dificuldade do setor não é abrir novas lojas, mas conseguir pessoas para trabalhar nelas”, afirma o dirigente.
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra que a escassez atinge oito das dez principais ocupações do setor supermercadista, que juntas representam cerca de 70% da força de trabalho das lojas, evidenciando que o problema está concentrado justamente nas funções essenciais para a operação.
Entre os cargos mais afetados estão operador de caixa, repositor, açougueiro e padeiro, posições diretamente ligadas ao atendimento ao cliente e ao abastecimento das gôndolas. Na prática, isso significa que a dificuldade de contratação impacta o funcionamento cotidiano das lojas, com reflexos na reposição de produtos, no tempo de atendimento e na experiência de compra.
Mudanças
Outro ponto destacado no levantamento é que a escassez não decorre de um único fator, mas de uma combinação de mudanças estruturais no mercado de trabalho, como a menor atratividade dessas funções, a busca por jornadas mais flexíveis e a migração de trabalhadores para outras atividades.
Para aliviar o problema, as entidades representativas do segmento firmaram um acordo com o governo federal para facilitar a contratação de beneficiários do Cadastro Único, permitindo que empresas tenham acesso a uma nova base de trabalhadores e, ao mesmo tempo, promovendo inclusão produtiva.
Apesar de se destacar no âmbito dos supermercados, segmento em que, até pelo volume, o impacto da escassez se torna mais visível e mensurável, a escassez de mão de obra é uma realidade igualmente crítica no varejo e na distribuição de autopeças.
Não por acaso, o tema foi destaque absoluto do último Fórum IQA da Qualidade Automotiva, realizado em outubro do ano passado. Durante o evento, lideranças de entidades do Aftermarket Automotivo, incluindo Sincopeças-SP, Sicap, Sindirepa e Andap, reforçaram que o setor já enfrenta dificuldades estruturais para atrair e reter profissionais qualificados.
Segundo o presidente do Sincopeças-SP, Heber Carvalho, o aftermarket vive um descompasso crescente entre a demanda por profissionais e a capacidade de formação de novos talentos, o que tende a se agravar nos próximos anos. Corroborando o colega, o presidente do Sicap e vice da Andap, Alcides Acerbi Neto, destacou que a dificuldade não está apenas na contratação, mas também na qualificação da mão de obra, especialmente diante da crescente complexidade técnica dos veículos e dos produtos comercializados.
A capacitação e o incentivo à formação profissional contínua foram pontos comuns das discussões como forma de combater gargalos históricos do setor, como a informalidade e a baixa atratividade de algumas funções operacionais, que dificultam a renovação da força de trabalho.
Vale dizer ainda que varejo e atacado estão longe de serem os únicos elos do Aftermarket Automotivo a sofrerem com esse cenário: notadamente as oficinas mecânicas independentes enfrentam dificuldades ainda maiores para encontrar profissionais qualificados. O tema, aliás, é alvo de uma preocupação a mais dada a necessidade de especialização técnica crescente, em meio ao aumento da frota de carros elétricos e à incorporação de novas tecnologias embarcadas nos veículos.

Inteligência artificial ainda é tema de longo prazo no varejo
Como não podia ser diferente, a Inteligência Artificial foi outro tema muito presente no 29º CEO Survey da PwC. Ao longo do estudo, a tecnologia aparece como um dos principais vetores de transformação do setor de varejo e consumo, ainda que em estágio de consolidação, com empresas buscando equilibrar investimentos com ganhos de eficiência.
Empresas brasileiras e internacionais se mostraram dispostas a ampliar o uso da IA como ferramenta estratégica para reinvenção dos negócios, mesmo que os resultados práticos avancem em ritmo mais gradual do que o esperado. Além disso, a tecnologia já começa a gerar impactos positivos em parte das organizações, sobretudo na geração de receita e na otimização de processos.
Entre as áreas que receberam mais investimentos, estiveram iniciativas ligadas à automação de processos, uso de dados e melhoria da eficiência operacional, ainda que o estudo não aponte verticalizações específicas por função dentro do varejo.
No meio do caminho entre a intenção e a colheita de resultados maduros, no entanto, ainda existe um gap – sobretudo quando comparamos com outros setores da economia, como a indústria, onde a IA tem impulsionado redução de desperdício e ganho de produtividade por meio de tecnologias ligadas à manufatura inteligente como a metrologia óptica e a robótica.
De acordo com o relatório da PwC, apenas 34% dos CEOs do setor de varejo e consumo no Brasil relataram aumento de receita associado ao uso de IA, enquanto 66% indicaram pouca ou nenhuma alteração, o que reforça que a maior parte das empresas ainda está em fase de adoção ou maturação das soluções. Além disso, o percentual de líderes que obtiveram redução de custos (28%) ficou bem próximo daqueles para os quais os custos aumentaram (22%), reflexo direto dos investimentos necessários em tecnologia, infraestrutura e capacitação.
Gargalos
Embora os resultados ainda estejam em consolidação, os líderes mantêm otimismo quanto à capacidade da tecnologia solucionar alguns gargalos importantes do setor, tal como a própria escassez de mão de obra.
O estudo mostrou que 72% dos CEOs esperam reduzir profissionais de entrada ao longo do próximo triênio, com expectativas de redução que chegam a robustos 16% em parte significativa das empresas, indicando que a IA tende a substituir atividades mais operacionais e repetitivas. Já para os cargos mais sêniores, o impacto esperado é significativamente menor, reforçando a tendência de valorização de funções estratégicas e analíticas no novo contexto tecnológico.
Quando trazemos a discussão para o universo do varejo automotivo nacional, os cases ainda são pontuais e concentrados em players mais digitalizados ou com maior capacidade de investimento em tecnologia. Apesar disso, segmentos como classificados automotivos, marketplaces e grandes plataformas digitais já começam a incorporar IA em etapas críticas da jornada de compra e venda.
Empresas como a OLX, por exemplo, têm utilizado inteligência artificial para melhorar a experiência do usuário, desde a recomendação de veículos até a precificação e análise de anúncios, tornando o processo mais eficiente tanto para vendedores quanto para compradores. Segundo seu vice-presidente, Flavio Passos, a tecnologia tem papel central na redução de fricções e no aumento da assertividade das transações dentro da plataforma.
O executivo conta que o uso de dados e algoritmos permite entender melhor o comportamento do consumidor, antecipar demandas e oferecer sugestões mais alinhadas ao perfil de cada usuário, o que impacta diretamente a conversão e a qualidade das negociações.
A mesma lógica começa a ganhar espaço no Aftermarket Automotivo, onde distribuidores, marketplaces e plataformas especializadas se utilizam de algoritmos para melhorar a identificação de peças, reduzir erros de compra e otimizar estoques e processos logísticos.
Tudo, no entanto, parece estar ainda em estado incipiente. Bem distante da realidade de países como Canadá e Estados Unidos, onde cerca de 80% dos revendedores já utilizam algum tipo de inteligência artificial em suas operações, seja para precificação, gestão de estoque, recomendação de produtos ou atendimento ao cliente.











