Quando a máquina vende para ninguém -

Quando a máquina vende para ninguém

O capitalismo pode estar criando a primeira tecnologia capaz de eliminar não apenas empregos, mas também a si próprio.

O ser humano é, por natureza, um ente em constante evolução e permeado por contradições. Neste exato momento, uma contradição paira sobre o mundo corporativo — talvez uma das mais perigosas na história recente do capitalismo. As empresas investem bilhões em inteligência artificial para substituir pessoas, reduzir custos e ampliar margens. Mas, no meio dessa corrida, uma pergunta ecoa: se a IA eliminar grande parte dos empregos, quem continuará comprando os produtos e serviços dessas mesmas empresas?

Desde o século XIX, a cada salto tecnológico surge o temor de que as máquinas acabem com o trabalho humano. Foi assim na Revolução Industrial, na mecanização das linhas de montagem e, mais tarde, na automação das fábricas. Em 1930, o economista John Maynard Keynes já falava em “desemprego tecnológico”, alertando para o risco de a tecnologia avançar mais rápido do que a capacidade da economia de criar novas ocupações.

Até aqui, o capitalismo sempre encontrou formas de absorver os impactos. Profissões desapareceram, mas outras surgiram. O problema é que a inteligência artificial parece diferente. Pela primeira vez, não estamos falando apenas da substituição do esforço físico, mas também da automação de capacidades cognitivas. Textos, diagnósticos, programação, atendimento, análise financeira, marketing, projetos técnicos: a IA começa a avançar justamente sobre funções que sustentam a renda da classe média global.

O estudo recente “The AI Layoff Trap”, publicado na plataforma arXiv, descreve o fenômeno como uma “armadilha de demissões”. Segundo os pesquisadores Brett Hemenway Falk e Gerry Tsoukalas, as empresas entram numa corrida competitiva para automatizar tarefas porque isso faz sentido econômico. O problema é que, ao substituir trabalhadores em massa, o próprio mercado consumidor começa a encolher. A empresa reduz custos, mas também ajuda a destruir a demanda que mantém o sistema funcionando. 

Os números explicam a inquietação. Estudos mostram retração em mercados de trabalho digitais expostos diretamente aos modelos generativos. Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre um possível “efeito China” da IA: ganhos gigantescos de produtividade concentrados em poucas empresas e forte pressão sobre salários intermediários.

No Aftermarket Automotivo, essa discussão parece distante — mas, talvez não esteja. Oficinas, distribuidores e varejistas ainda dependem intensamente da confiança humana, da experiência prática e do relacionamento. Porém, a cadeia já começa a sentir a pressão da automação em atendimento, diagnóstico remoto, gestão de estoque, precificação e vendas digitais.

É fato que nenhum algoritmo troca amortecedor, sente vibração em suspensão ou conquista fidelidade no balcão sozinho. A reposição continua sendo uma economia profundamente sustentada por pessoas. Só que essas pessoas precisam ter renda – e é exatamente aí que o debate chega ao aftermarket.

Talvez o maior risco da IA não seja tecnológico. Seja econômico. Uma sociedade em que apenas máquinas trabalham pode ser extremamente eficiente nos balanços trimestrais, mas desastrosamente vazia nos caixas das próprias empresas. Há uma ironia quase brutal nisso: o capitalismo pode estar criando a primeira tecnologia capaz de eliminar não apenas empregos, mas também a si próprio.

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