Fundos, bancos e gigantes globais: por que o aftermarket entrou de vez no radar dos investidores -

Fundos, bancos e gigantes globais: por que o aftermarket entrou de vez no radar dos investidores

Segundo especialista da KPMG, combinação de frota envelhecida, demanda recorrente e digitalização tornam o mercado brasileiro de reposição muito atrativo para investimentos

Um dos principais mercados de reposição do planeta, o Aftermarket Automotivo brasileiro reúne uma combinação rara de escala, resiliência, recorrência de demanda e potencial de crescimento. Não por acaso, o setor tem atraído cada vez mais atenção de fundos de investimento, bancos, fintechs e investidores estratégicos interessados em participar de um mercado que, segundo projeções da McKinsey, deverá quase dobrar de tamanho nas próximas décadas.

Parte importante dessa atratividade está, naturalmente, na dimensão do parque nacional de veículos. Segundo o Relatório da Frota Circulante 2025 publicado pelo Sindipeças e baseado no Sistema de Gerenciamento de Frota (SGF), a frota circulante brasileira de autoveículos em 2024 alcançou 48,08 milhões de unidades (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus), sendo 39,01 milhões de carros leves. Trata-se de uma das maiores bases automotivas do mundo, garantindo demanda constante por manutenção, reparação e reposição de componentes.

O volume de veículos, porém, apenas começa a contar essa história. A reposição nacional reúne características bastante particulares que ajudam a explicar por que o setor passou a despertar o interesse de agentes financeiros que, historicamente, concentravam seus investimentos em outros stores da economia.

Envelhecimento da frota turbina mercado

Entre os fatores mais relevantes para a atratividade do mercado brasileiro de manutenção veicular está o envelhecimento da frota brasileira. De acordo com o Relatório da Frota Circulante 2025, a idade média dos autoveículos atingiu 10 anos e 11 meses. O dado é ainda mais expressivo quando consideramos apenas os automóveis leves: 11 anos e 2 meses. Este processo vem se desenrolando ao longo dos últimos anos e decorre de fatores como como encarecimento dos carros novos, restrição de crédito observada em diferentes momentos da última década e ausência de políticas estruturadas de renovação da frota. Na prática, isso significa um número cada vez maior de veículos demandando manutenção, reparação e substituição de peças com mais constância.

Outro aspecto frequentemente destacado pelos especialistas é a elevada pulverização do setor. Segundo levantamento recente do Sincopeças-SP, o aftermarket brasileiro continua marcado pela predominância de micro e pequenas empresas, distribuídas em uma cadeia extensa e fragmentada. Apenas entre 2024 e 2025, o varejo de autopeças registrou redução de aproximadamente 9 mil empresas, movimento interpretado por parte do mercado como um reflexo dos processos de consolidação em curso. O mesmo estudo destaca que o país conta com a proporção próxima de oito varejistas para cada atacadista, evidenciando um ambiente altamente pulverizado e com amplo espaço para ganhos de escala e eficiência.

A própria complexidade do mercado reforça essa percepção. Segundo o Anuário do Sincopeças, o aftermarket brasileiro oferece atualmente mais de 800 mil produtos ativos distribuídos em mais de 8.200 marcas e 4.620 grupos de produtos, realidade que exige investimentos crescentes em tecnologia, logística, gestão de estoques e inteligência operacional.

Todo esse conjunto de fatores levou a McKinsey a apontar para um enorme potencial de evolução do aftermarket brasileiro e um salto que, condicionado por fatores como digitalização, integração da cadeia e crescimento dos marketplaces, pode fazê-lo alcançar a marca de US$ 25 bilhões até 2040.

Longe de representar apenas uma projeção otimista sobre o futuro do setor, essa perspectiva já começa a ser validada por movimentos concretos observados no mercado. Nos últimos anos, o aftermarket passou a atrair aportes de fundos de investimento, operações de fusões e aquisições, investimentos em plataformas digitais e a aproximação de bancos e outros agentes financeiros interessados em participar do segmento.

De 2020 para cá, aftermarket recebeu investimentos bilionários 

De fundos de private equity a gestoras de investimentos, passando por bancos, fintechs e grupos internacionais, diferentes agentes passaram a enxergar o aftermarket automotivo como um mercado capaz de combinar demanda recorrente, resiliência econômica e oportunidades de consolidação.

Um dos casos mais emblemáticos desse movimento foi protagonizado pela Advent International. A partir da aquisição da Fortbras, em 2016, o fundo transformou a companhia em uma plataforma de consolidação do mercado brasileiro de reposição, impulsionando uma série de aquisições e ampliando significativamente sua presença nacional. Desde então, o fundo investiu cerca de R$ 1,2 bilhão no Brasil, culminando na compra da Rondobras e na criação de uma gigantesca rede de varejos de autopeças. O caso é frequentemente citado como um dos primeiros grandes exemplos de private equity apostando na capacidade de crescimento estrutural do Aftermarket Automotivo brasileiro.

Há algum tempo atrás, a SK Tarpon / Tarpon Investimentos S.A. ) buscou participação em uma empresa automotiva genuinamente nacional e com forte presença no mercado de reposição. A gestora de investimentos é reconhecida por comprar relevantes fatias de negócios e atuar em sua gestão. No entanto, ao menos até o momento, as abordagens não tiveram resultado concreto.

Mais recentemente, o movimento chegou de forma explícita ao varejo de autopeças. Em dezembro de 2024, a Vinci Partners anunciou a aquisição de 55% da rede baiana O Varejão Autopeças em uma operação avaliada em aproximadamente R$ 110 milhões. O negócio chamou a atenção justamente por envolver uma das principais gestoras independentes do país apostando diretamente em uma empresa do aftermarket, com foco em expansão e ganho de escala.

O interesse dos investidores, porém, não se limita à compra de empresas tradicionais do setor. Em 2021, o Santander, por meio da Webmotors, adquiriu participação majoritária na Car10, plataforma que conecta consumidores a oficinas mecânicas e serviços automotivos em todo o país. Na época da operação, a empresa já reunia mais de 8 mil oficinas parceiras. No mesmo movimento, o grupo também adquiriu participação na Solution4Fleet, empresa especializada em locação, assinatura e gestão de frotas.

As duas operações ajudam a ilustrar uma mudança importante na forma como o mercado financeiro passou a enxergar o segmento. Mais do que vender veículos ou oferecer crédito automotivo, bancos e fintechs passaram a olhar para a manutenção, a reparação e a gestão da vida útil dos veículos como oportunidades relevantes de geração de receita e relacionamento contínuo com o consumidor.

Os investimentos também ocorrem por meio da expansão direta de grupos internacionais. Um dos exemplos mais visíveis é a AutoZone. Presente no Brasil há mais de uma década, a varejista norte-americana ultrapassou a marca de 150 lojas no país e segue investindo na ampliação de sua capilaridade.

Especialista da KPMG vê aftermarket como um dos mercados mais promissores da cadeia automotiva e aposta em continuidade dos investimentos

Se os movimentos observados nos últimos anos ajudam a demonstrar o crescente interesse de investidores pelo Aftermarket Automotivo, especialistas afirmam que eles estão longe de ser pontuais. Para Ricardo Roa, sócio e líder do segmento automotivo da KPMG Brasil, a atenção dedicada ao setor é resultado de uma combinação de fatores estruturais que vêm tornando a reposição automotiva cada vez mais atrativa sob a ótica financeira.

Na avaliação do executivo, o ambiente macroeconômico observado nos últimos anos contribuiu para acelerar esse processo. Segundo ele, fatores como juros elevados, crédito mais restrito e a valorização do dólar reduziram o ritmo de renovação da frota, ampliando a permanência dos veículos em circulação e fortalecendo a demanda por manutenção e reposição.

Ao mesmo tempo, Roa destaca que o próprio posicionamento das montadoras em relação ao aftermarket mudou significativamente. Segundo ele, com as margens pressionadas no mercado de veículos novos, fabricantes passaram a olhar para peças, serviços e canais digitais como importantes fontes de rentabilidade, contribuindo para aumentar a visibilidade do setor perante investidores.

Outro fator apontado pelo especialista é o avanço da digitalização. A expansão de marketplaces, plataformas B2B, soluções de crédito e ferramentas de pagamento ajudou a tornar o mercado mais organizado e escalável, características tradicionalmente valorizadas por fundos de investimento e instituições financeiras.

Na visão da KPMG, o interesse dos investidores também está diretamente relacionado ao perfil econômico do aftermarket. Segundo Roa, o setor reúne atributos difíceis de encontrar simultaneamente em outros segmentos da cadeia automotiva. “O aftermarket se torna uma chave de resiliência em crises, pois em períodos de desaceleração, o consumidor posterga o carro novo e investe mais para manter o atual, o que sustenta o faturamento do setor”, destaca o analista.

Para o executivo, essa característica ajuda a explicar por que o mercado continua atraindo atenção mesmo em cenários econômicos mais desafiadores. Segundo ele, a combinação entre demanda recorrente, previsibilidade de receitas e necessidade relativamente menor de investimentos intensivos em ativos físicos torna o setor particularmente interessante para investidores focados em crescimento de longo prazo.

Ao analisar os diferentes elos da cadeia, Ricardo Roa afirma que a distribuição, o varejo, os centros automotivos e as empresas de tecnologia aparecem entre os segmentos com maior potencial de geração de valor. No caso dos distribuidores, a elevada fragmentação abre espaço para movimentos de consolidação capazes de gerar ganhos de escala e eficiência. Já no varejo e nos centros automotivos, a proximidade com o consumidor final favorece a construção de marcas fortes e a ampliação da oferta de serviços.

As empresas de tecnologia também ocupam papel de destaque nesse cenário. Conforme o especialista, marketplaces, plataformas de gestão de oficinas, catálogos eletrônicos e soluções baseadas em dados representam modelos de negócio escaláveis e com potencial de margens mais elevadas, características tradicionalmente valorizadas por investidores.

Para os próximos anos, Roa acredita que a combinação entre digitalização, envelhecimento da frota, integração da cadeia e consolidação do mercado deverá sustentar o interesse de investidores nacionais e estrangeiros. Segundo ele, o aftermarket brasileiro ainda apresenta amplo espaço para novos ciclos de fusões e aquisições, crescimento de empresas de tecnologia e entrada de capital internacional. “Na prática, há espaço para novos movimentos de consolidação, maior participação de capital estrangeiro e crescimento relevante de empresas de tecnologia integradas ao aftermarket tradicional”.

Aftermarket Automotivo pode estar apenas no começo da sua onda de consolidação

Nos últimos 20 anos, alguns dos principais setores da economia brasileira passaram por profundas transformações impulsionadas por fundos de investimento, private equity e operações de fusões e aquisições. Saúde, educação e varejo alimentar são exemplos emblemáticos desse movimento.

Saúde: da pulverização aos gigantes bilionários

No início dos anos 2000, o setor de saúde suplementar era altamente fragmentado. A entrada de capital e a consolidação deram origem a grandes grupos nacionais. O caso mais emblemático foi a fusão entre Hapvida e NotreDame Intermédica, concluída em 2021, que criou uma companhia avaliada em cerca de R$ 110 bilhões, uma das maiores operações corporativas da história recente do país. 

Educação: consolidação por aquisições

O ensino privado brasileiro também era formado por centenas de instituições independentes. Ao longo de duas décadas, grupos como Cogna (antiga Kroton), Yduqs (Estácio), Cruzeiro do Sul e Ser Educacional lideraram dezenas de aquisições, transformando um mercado pulverizado em um setor dominado por plataformas nacionais. Mesmo hoje, movimentos de consolidação continuam no radar, incluindo novas conversas entre Cogna e Yduqs. 

Varejo alimentar: redes regionais transformadas em plataformas

O varejo supermercadista seguiu trajetória semelhante. Operações lideradas por Carrefour, Assaí, GPA e fundos de investimento reduziram gradualmente a participação de empresas independentes e ampliaram o peso das grandes plataformas nacionais.

E o Aftermarket Automotivo?

Sob vários aspectos, o aftermarket brasileiro lembra outros setores antes da consolidação:

CaracterísticaSaúde (anos 2000)Educação (anos 2000)Aftermarket hoje
Mercado pulverizado
Empresas familiares
Baixa concentração
Receita recorrente
Ganhos de escala relevantes
Interesse de fundosCrescente
Forte componente tecnológicoMédioAltoCrescente

Mas há um diferencial importante. Enquanto saúde e educação dependem fortemente de regulação e de mudanças demográficas, o aftermarket se apoia em uma base de aproximadamente 48 milhões de autoveículos com idade média próxima de 11 anos – e com previsão de dobrar seu faturamento até 2040.

Essa combinação de escala, previsibilidade e baixa concentração é justamente o tipo de característica que costuma atrair fundos de private equity. (McKinsey). Ao que tudo indica, os investimentos observados até agora não representam o auge desse movimento, mas apenas seus primeiros capítulos. Em outras palavras, enquanto saúde, educação e varejo já viveram grandes ondas de consolidação, o Aftermarket Automotivo brasileiro pode estar apenas começando a viver a sua.

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