O setor de autopeças entrou no radar dos investidores com uma leitura mais seletiva por parte da XP. Em relatório divulgado ao mercado e reportado por veículos especializados, a corretora elevou a recomendação da Tupy de neutra para compra e manteve visão positiva para Marcopolo e Iochpe-Maxion. Ao mesmo tempo, reiterou posição neutra para Randoncorp e Frasle Mobility. Em um ambiente de juros elevados, crédito restrito e recuperação ainda irregular do mercado doméstico de veículos pesados, o mercado financeiro passa a premiar empresas com balanços mais desalavancados, exposição internacional e maior previsibilidade de geração de lucros.
A principal alteração foi a elevação da Tupy para compra. Segundo a Suno, a XP definiu preço-alvo de R$ 20 para TUPY3, o que representava potencial de valorização de 39% sobre a cotação considerada no relatório. A tese está apoiada na expectativa de recuperação da demanda por caminhões pesados nos Estados Unidos, na entrada de novos contratos no Brasil e no exterior, em sinais de inflexão dos lucros e em avanços recentes de governança. A publicação também informa que a XP projeta crescimento de 159% no lucro da companhia em 2027.
A mudança chama atenção porque a própria Tupy vinha de um início de ano ainda pressionado. Em seu release oficial de resultados do primeiro trimestre de 2026, a companhia informou EBITDA ajustado de R$ 99 milhões, queda de 60% em relação ao mesmo período de 2025, com margem de 4,3%. O resultado foi impactado por volumes mais fracos, efeitos cambiais e custos ligados ao processo de transição operacional. Ou seja, a recomendação positiva da XP não parece refletir o desempenho corrente, mas uma aposta em virada de ciclo e recuperação de rentabilidade a partir dos próximos trimestres.
Esse ponto é importante para a leitura setorial. A XP não está simplesmente escolhendo empresas com resultados recentes mais fortes. Está distinguindo aquelas que, em sua visão, oferecem melhor assimetria entre preço, risco e possibilidade de recuperação. No caso da Tupy, a tese depende da melhora do mercado norte-americano de caminhões pesados e da capacidade da companhia de capturar novos contratos com maior eficiência. Para o ecossistema de autopeças, isso mostra como os fornecedores brasileiros estão cada vez mais avaliados não apenas pelo desempenho da indústria local, mas por sua inserção em cadeias globais de produção.
A Iochpe-Maxion também permanece entre as preferências da corretora. Segundo o InfoMoney, a XP manteve recomendação de compra para MYPK3, destacando diversificação geográfica, valuation descontado, múltiplo de aproximadamente 4,1 vezes o lucro estimado para 2027 e dividend yield projetado em torno de 9% entre 2026 e 2027. A Suno acrescenta que o preço-alvo apontado para a ação é de R$ 13, com potencial de valorização de 47%, o maior entre os nomes positivos citados no relatório.
A leitura sobre a Iochpe-Maxion reforça um dos eixos centrais da análise: diversificação. Em um setor sujeito a ciclos de produção, juros, crédito e câmbio, a presença em diferentes regiões pode suavizar oscilações locais. A companhia, fornecedora global de rodas e componentes estruturais automotivos, passa a ser vista não apenas como uma aposta no Brasil, mas como uma empresa exposta a múltiplos mercados e cadeias de produção. Essa característica ganha valor em um momento no qual o ciclo doméstico ainda não oferece recuperação uniforme.
Marcopolo completa o grupo de preferências positivas. De acordo com o InfoMoney, a XP manteve recomendação de compra para POMO4, apoiada na resiliência do modelo de negócios, balanço sólido, potencial de dividendos e múltiplo de cerca de 5,4 vezes o lucro estimado para 2026, abaixo do patamar considerado justo pela corretora. A Suno informa preço-alvo de R$ 8, com potencial de valorização de 44%.
Os dados oficiais mais recentes da Marcopolo mostram um primeiro trimestre sem euforia, mas ainda sustentado por margens relevantes. A companhia informou produção total de 2.997 unidades no 1T26, queda de 9,0% sobre o mesmo período do ano anterior, e receita líquida de R$ 1,655 bilhão, recuo de 1,3%. O lucro bruto foi de R$ 373,4 milhões, com margem de 22,6%. A avaliação positiva da XP, portanto, parece estar menos associada a aceleração imediata de volume e mais à percepção de resiliência, estrutura financeira e capacidade de remuneração ao acionista.
Na outra ponta, Randoncorp e Frasle Mobility foram mantidas com recomendação neutra, ainda que por motivos diferentes. Para a Randoncorp, a XP aponta ausência de uma inflexão clara dos lucros, pressão dos juros elevados sobre a demanda por caminhões e implementos, além de despesas financeiras ainda pesadas. Segundo a Suno, o preço-alvo indicado para RAPT4 é de R$ 5, com potencial de alta de 13%.











