Mudança de matriz mecânica para eletrônica pode ser problema para autopeças -

Mudança de matriz mecânica para eletrônica pode ser problema para autopeças

Carros híbridos representam melhor alternativa para transição energética dos carros brasileiros

A definição da rota tecnológica mais adequada para o Brasil é uma discussão presente no dia a dia da indústria da mobilidade e que nos próximos anos trará uma série de desdobramentos em todo o ecossistema automotivo do país. Embora a eletrificação seja uma tendência irreversível, a consultora Letícia Costa concorda com a tese defendida no setor automotivo de que o Brasil possui uma vantagem competitiva específica que não pode ser ignorada. Em sua avaliação, a combinação entre eletrificação e biocombustíveis torna o híbrido flex uma solução mais racional do que simplesmente replicar os modelos adotados por países desenvolvidos. A escolha não envolve apenas emissões de carbono. Também considera os elevados investimentos necessários para expansão da infraestrutura de recarga em um país de dimensões continentais.

Mas talvez nenhum elo da cadeia tenha tanto a perder com essa evolução quanto o setor de autopeças. À medida que os veículos incorporam mais eletrônica, software e sistemas inteligentes, componentes mecânicos tradicionais tendem a reduzir participação relativa na composição dos automóveis. Para os fabricantes de autopeças, especialmente nas camadas Tier 2 e Tier 3, isso significa que a adaptação tecnológica deixa de ser uma questão de crescimento e passa a ser uma questão de sobrevivência. “É preciso entender que vai ter uma mudança na matriz tecnológica, de mecânica para eletrônica”, afirmou a consultora.

Por isso, ela acredita que parte do setor precisará rever portfólios, buscar parcerias, investir em novas competências e até reposicionar seus modelos de negócio. “O setor de autopeças vai ter que se transformar ou ele corre o risco, entre aspas, de morrer”, alertou Letícia.

No fundo, todos esses movimentos convergem para uma única discussão. O Brasil possui ativos que poucos países conseguem reunir simultaneamente: matriz energética limpa, liderança em biocombustíveis, capacidade industrial instalada, recursos minerais estratégicos e um mercado consumidor relevante. O que ainda está em aberto é como transformar essas vantagens em geração de conhecimento, tecnologia e inovação.

Porque o verdadeiro risco apontado por Letícia Costa não é perder fábricas. É perder relevância.

“É importante a gente reconhecer que se não fizermos nada, corremos o risco de ter uma indústria que só monta aqui”. Caso isso aconteça, baterias, software, eletrônica, inteligência artificial e desenvolvimento tecnológico virão de fora. A produção continuará existindo, mas uma parcela cada vez menor do valor agregado permanecerá no país.

É por isso que a discussão sobre eletrificação, software, baterias e competição chinesa é, na verdade, um debate sobre algo muito maior. Não se trata apenas de definir quais carros serão produzidos no Brasil nas próximas décadas; será fundamental decidir se o país continuará participando da criação de valor da indústria automotiva global ou vai se contentará em montar, localmente, a inovação produzida em outros lugares.

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