Mesmo em um mercado de US$ 435 bilhões, a palavra que melhor define o Aftermarket Automotivo norte-americano em 2026 é incerteza. A conclusão está na primeira edição do State of the Automotive Aftermarket Survey Report, levantamento realizado com 448 profissionais do setor – entre oficinas, distribuidores, fabricantes e fornecedores – pela AAPEX – Automotive Aftermarket Products Expo, principal feira focada no mercado de reposição e acessórios automotivos dos Estados Unidos. Em 2026, o evento será realizado de 3 a 5 de agosto em Las Vegas.
O estudo revela um setor que continua demonstrando capacidade de resistência, sustentado pelo envelhecimento da frota e pela necessidade inevitável de manutenção. Mas, também, um mercado mais cauteloso, pressionado por custos, pela escassez de mão de obra qualificada e por dúvidas crescentes em torno da eletrificação – eis aí fatores que aproximam o mercado norte-americano da reposição brasileira.
Demanda
Embora 61% dos entrevistados esperem aumento da demanda por peças e serviços ao longo de 2026, o otimismo não se traduz em projeções mais agressivas de faturamento. A expectativa predominante é de estabilidade. Segundo a pesquisa, 31% acreditam que superarão suas metas de vendas, enquanto 42% esperam apenas repetir os resultados previstos. Outros 27% já admitem ficar abaixo das expectativas.
Na avaliação dos participantes, os preços elevados dos veículos novos estão prolongando a vida útil dos automóveis em circulação e favorecendo o mercado de reparação. Entre os comentários registrados no levantamento, uma percepção se repete: os consumidores estão ficando mais tempo com seus veículos e, consequentemente, investindo mais em manutenção.
Incerteza
Quando questionados sobre os maiores obstáculos enfrentados pelo aftermarket, 45% apontaram a incerteza como principal preocupação. O problema aparece à frente até mesmo da escassez de profissionais qualificados, citada por 36% dos entrevistados. Em terceiro lugar surge a necessidade de desenvolver preços mais competitivos, mencionada por 31%.
Tarifas comerciais, inflação, custo de vida e volatilidade econômica aparecem constantemente nos comentários abertos da pesquisa. O resultado é um mercado pressionado por uma equação delicada: custos em alta e consumidores cada vez mais sensíveis aos preços.
Qualidade
A pesquisa mostra que 53% dos profissionais perceberam aumento na demanda por peças e serviços de menor custo. Mas o dado mais interessante é que o preço não se tornou o principal critério de compra. Pelo contrário. A qualidade continua sendo o fator mais importante na decisão do consumidor.
Na prática, o estudo sugere que o mercado não está migrando simplesmente para produtos baratos, mas para uma lógica de valor: o cliente procura a melhor relação entre qualidade e preço.
A percepção é reforçada pelos depoimentos dos entrevistados, que relatam perda do poder aquisitivo e maior racionalidade nas compras, especialmente em veículos mais antigos.
Estoques
Outra mudança estrutural observada pela pesquisa está na gestão dos estoques. Entre os entrevistados, 38% afirmam trabalhar atualmente com volumes maiores de peças, enquanto apenas 20% reduziram seus estoques.
A estratégia parece ser uma resposta às incertezas da cadeia de suprimentos. O estudo cita ainda uma análise do banco Morgan Stanley segundo a qual os estoques mantidos pelos varejistas cresceram 36% desde 2019, acompanhados pela expansão de centros de distribuição e mega hubs logísticos.
As experiências dos últimos anos também mudaram a forma como as empresas enxergam seus fornecedores. Segundo a AAPEX, 70% das empresas já concluíram a diversificação de suas fontes de suprimento (6%), estão em processo de implementação (46%) ou ainda em fase de planejamento (18%).
O movimento reflete uma tentativa de reduzir riscos em um ambiente marcado por tensões comerciais e incertezas geopolíticas.
Mensagem
Talvez a principal mensagem da pesquisa da AAPEX seja justamente o contraste entre cautela e resiliência. O aftermarket norte-americano não vive um cenário de euforia. Tampouco demonstra sinais de retração. A demanda continua crescendo, impulsionada por uma frota envelhecida e por consumidores que adiam a troca do veículo. Ao mesmo tempo, o setor convive com dúvidas sobre eletrificação, margens pressionadas, dificuldade para contratar profissionais e um ambiente econômico instável.
Paradoxalmente, a pesquisa sugere que o maior inimigo do aftermarket não é a falta de oportunidades, mas a falta de previsibilidade.
E talvez seja exatamente por isso que um setor acostumado a conviver com mudanças continua fazendo aquilo que historicamente sabe fazer melhor: adaptar-se.















