Fonte: Diário do Comércio
A música ambiente faz parte das estratégias que o varejo pode adotar para construir a experiência de compra. Para escolher o repertório, o lojista precisa considerar o perfil do público, a identidade da marca e os objetivos que pretende alcançar com a trilha sonora.
No Grupo Tchica, rede de moda feminina com sete lojas, a seleção musical é feita por meio de um serviço especializado desde 2015, segundo o proprietário, Mário Morais. Antes, ele próprio escolhia as músicas e as colocava em um pendrive para tocar nas unidades. Com a contratação do serviço, o repertório passou a ser definido a partir de um questionário sobre a personalidade da marca.
“As músicas que tocam nas unidades têm a estratégia de fazer a cliente se lembrar da loja. Se tocarmos música comum, que toca direto nas rádios ou shows, essa referência é perdida, pois a cliente pode remeter a música a qualquer local”, afirma Mário.
A implementação da estratégia também exigiu adaptação da equipe. Segundo o empresário, no início houve resistência dos funcionários, principalmente em relação às músicas em inglês. O repertório é atualizado ao longo do ano e pode mudar em datas como Carnaval, São João e Natal, de acordo com o contexto e o público das lojas.
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A padronização permite manter uma identidade sonora nas sete unidades. Mário afirma que percebe a diferença quando encontra uma loja com o som desligado ou com músicas de outro estilo. “Quando eu chego na loja e o som está desligado ou tocando outro estilo de música, por algum motivo, o impacto é imediato. Sem som, o ambiente fica sem vida, sem energia, um silêncio absoluto que dá vontade de sair logo da loja”, diz.
Apesar dessa percepção, o empresário afirma que a rede não dispõe de indicadores que permitam relacionar a música diretamente ao faturamento. A equipe considera comentários dos clientes e impressões sobre o ambiente, mas não tem dados que comprovem um aumento nas vendas associado à trilha sonora.
Quanto custa e como avaliar
No Grupo Tchica, o serviço custa R$ 100 por unidade ao mês, totalizando R$ 700 mensais nas sete lojas.
Segundo André Domingues, fundador e executivo-chefe da Musique, a música deve ser considerada parte da experiência do consumidor, e não uma ferramenta isolada para elevar as vendas. “Eu costumo dizer que quem diz que tem a música certa para influenciar a decisão de compra está mentindo. Isso é mito”, afirma. “A música, por si só, não vai aumentar o faturamento.”
A empresa relata testes realizados em estabelecimentos para observar mudanças no comportamento dos consumidores. Em um café, uma comparação entre playlists escolhidas pelos funcionários e o serviço de arquitetura musical apontou aumento do tempo médio de permanência de 54 para quase 60 minutos, uma variação de aproximadamente 9%.
O resultado, informado pela empresa, não permite concluir que a música tenha sido a única responsável pela mudança. Para avaliar os efeitos da estratégia, é necessário considerar as condições em que a comparação foi realizada e outros fatores que podem influenciar o comportamento dos clientes.
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Para Jean Paul Rebetez, sócio-diretor da Gouvêa Consulting, uma trilha sonora adequada pode tornar o ambiente mais acolhedor e estimular o consumidor a explorar os produtos e serviços disponíveis. “Quando se sente confortável, o consumidor tende a permanecer mais tempo na loja e a ficar mais aberto a explorar o espaço, conhecer produtos e descobrir serviços que atendam às suas necessidades”, afirma.
Esse tempo adicional pode ampliar as oportunidades de venda, mas não garante, por si só, um aumento no faturamento. Segundo o consultor, a música precisa estar alinhada à identidade da marca e ao perfil do público para contribuir com a experiência de compra.
Escolha do repertório
A definição das músicas exige atenção a aspectos como volume, ritmo e estilo musical. O objetivo é criar um ambiente agradável sem que a trilha sonora se torne um incômodo para os consumidores ou atrapalhe a interação com os funcionários.
“A música deve acompanhar a experiência, não chamar mais atenção do que a loja”, afirma Jean. O consultor também recomenda considerar os diferentes períodos de funcionamento do estabelecimento, como manhã, tarde e noite, na escolha do repertório.
A estratégia pode ser adotada tanto por grandes redes quanto por pequenos comerciantes. Nesse caso, o lojista pode selecionar as músicas por conta própria, desde que a escolha esteja relacionada à proposta do negócio, e não apenas às preferências pessoais. Jean também chama a atenção para a necessidade de considerar custos relacionados à execução pública musical, como os direitos autorais arrecadados pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).
Como medir os resultados
Para acompanhar os efeitos da estratégia, Jean recomenda observar indicadores como tempo de permanência, tíquete médio, volume de vendas e taxa de conversão, que corresponde à proporção de visitantes que efetivamente realizam uma compra.
Uma das possibilidades é testar diferentes repertórios e comparar os resultados em condições controladas. A análise deve levar em conta fatores como promoções, preços e sazonalidade, que também podem interferir no desempenho comercial.
Mais do que buscar um aumento imediato nas vendas, a música ambiente pode ajudar o varejista a construir uma identidade própria e oferecer uma experiência coerente com a proposta da marca.
















