Rodrigo Bueno é Diretor da ABB Robótica para o Cluster South America.
Historicamente, a indústria automotiva sempre representou um dos termômetros mais sensíveis no que diz respeito à evolução industrial e o avanço de seus processos e, sobretudo ao longo da última década, poucas áreas passaram por transformações tão profundas e ao mesmo tempo tão visíveis quanto as linhas de produção de veículos.
No Brasil, esse movimento de transformação e inovação tem ganhado contornos ainda mais relevantes, à medida que o setor busca equilibrar eficiência, competitividade a nível global e adaptação a um novo ciclo tecnológico e ferramental. Dentro desse contexto, a automação industrial passa a representar um papel determinante no futuro da indústria automotiva brasileira.
Isso porque a Indústria 4.0 – conceito alavancado pela integração entre sistemas digitais, dados e manufatura – redefine a lógica de produção tradicional do setor, não representando apenas a automatização de tarefas repetitivas, mas a construção de ambientes produtivos inteligentes, conectados e, mais do que isso, potencializados por ferramentas capazes de aprender de modo contínuo.
No setor automotivo, isso se traduz em fábricas inteligentes, em que robôs industriais, sistemas de visão computacional e softwares de gestão, a partir de uma operação integrada, promovem um nível de precisão e eficiência em escala sem precedentes.
Para que se possa entender as expectativas do uso de novas tecnologias no setor automotivo, uma projeção da consultoria Mordor Intelligence aponta que o uso de IA no segmento deve alcançar US$ 15 bilhões em investimentos até 2030. Já o mercado global de robótica automotiva pode superar US$26,76 bilhões nos próximos 7 anos, com uma taxa de crescimento anual de mais de 13% no período, segundo a Fortune Business Insights.
Como é possível perceber, a tendência é que observemos, nos próximos anos, um crescimento do protagonismo dos robôs industriais no setor, que hoje já desempenham funções complexas, incluindo a montagem de componentes até inspeções de qualidade em tempo real.
Esse potencial de avanço amplia não só a produtividade das empresas, mas também otimiza processos, a redução de variabilidades e a garantia de padrões elevados de qualidade.
E, em um ambiente de pressão por custos, com margens que se estreitam cada vez mais, aumentar o potencial produtivo, com maior previsibilidade e menos desperdício, torna-se um aspecto estratégico relevante. Em termos práticos, sistemas automatizados possibilitam ainda uma otimização do uso de insumos e redução de retrabalho, com impactos diretos na rentabilidade dos processos e da operação.
Desafios e oportunidades
Como acontece em diversos outros setores econômicos no país, essa transformação do setor automotivo ocorre dentro de um contexto desafiador. Por mais que o país possua uma base industrial relevante e consolidada, questões estruturais como custo operacional elevado, complexidade tributária e necessidade de maior integração tecnológica ainda representam obstáculos. Nesse sentido, a modernização das plantas industriais é uma necessidade para que se possa manter competitividade frente a outros mercados globais.
Contudo, muitas plantas industriais ainda operam sob infraestruturas antigas, fato que impõe a necessidade de aceleração de investimento em prol da competitividade industrial brasileira no panorama internacional.
Outro desafio nesse plano está relacionado à força de trabalho. Com a esperada automatização de atividades repetitivas, espera-se um crescimento de demanda por profissionais qualificados em atividades como programação, manutenção de sistemas, análise de dados e gestão de processos digitais. Trata-se de uma nova perspectiva, que exige um esforço de qualificação e desenvolvimento de competências das equipes.
Mas, se todo desafio traz consigo uma oportunidade, a própria digitalização permite que o país se posicione em novas cadeias globais de negócio, trazendo protagonismo para um setor que vive um ciclo importante de retomada.
Fato é que a automação industrial já deixa de ser apenas um diferencial para se consolidar como um elemento estrutural da indústria automotiva também no Brasil. Muito mais do que apenas incorporar novas tecnologias esperando resultados imediatos, é fundamental construir uma visão integrada que combine eficiência da operação, capacitação de pessoas e inovação contínua. Empresas que conseguirem avançar nessa agenda de maneira estratégica estarão preparadas não só para acompanhar tendências, mas liderá-las.










