Acabou a era da abundância -

Acabou a era da abundância

Em entrevista exclusiva ao Novo Varejo, Diretora Executiva do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (IBEVAR), Teresa Cristina Charotta mergulha nos principais tópicos da NRF.

Novo Varejo – Qual a sua avaliação geral da participação dos brasileiros na NRF 2024? O período de instabilidade do varejo no Brasil influenciou, de alguma forma – positiva ou negativamente – a presença de varejistas brasileiros na feira?

Teresa Cristina Charotta – A participação de brasileiros na NRF 2024 foi maior em quase 10% em relação a 2023, que teve a participação de 2.283, versus 2.495 de 2024. O recorde foi em 2019, com 3.400 brasileiros que visitaram a NRF, antes da pandemia e com um cenário econômico diferente do atual. Acredito que o câmbio também influencia no poder de participação, visto que a inscrição ficou bem mais cara do que anos anteriores: varejistas US$ 1.000 e outros participantes US$ 3.400.

 NV – Na sua visão, qual foi a narrativa central da NRF 2024?

TCC – A narrativa desse ano foi “Make it matter”, ou seja, “Faça com que isso seja importe”. O varejo está percebendo que não são somente tecnologias que farão acontecer. O varejo físico é relacional e esse é o grande desafio para o mercado americano.

NV – Se tivesse de apontar os insights principais da feira, quais seriam?

TCC – 1) Economia digital é uma realidade: segundo Lee Peterson, 68% dos consumidores preferem compras on-line. 2) Empatia digital: segundo Kate Ancketill PI (Personal Intelligence), é realizada a partir da fusão da AI generativa com os dados pessoais apoiando a vida do indivíduo. Experimentei e gostei…muito interessante (Persona AI). 3) Customize seu produto; será uma tendência cada vez maior e trazendo a reciclagem como um novo ecossistema de consumo circular, ou seja: o que eu faço importa, novo e usado é o novo, tudo junto e misturado…etc. 4) Fidelidade adquirida será focada em vender facilidade e exclusividade de produtos e serviços. 5) Logística de vizinhança, ou seja, quanto mais rápida a entrega e como rastrear seu pedido será diferencial. 6) O livecommerce levará entretenimento, engajamento e orientação das marcas, será preciso interagir com a comunidade. 7) A era da influência vai além do produto e exige espaços de voz para influenciadores e a comunidade.

 NV – O cenário global de tendência de queda de juros permeou, de alguma maneira, as discussões da feira em torno das expectativas sobre a disponibilidade de crédito e comportamento do consumidor ao longo do ano?

TCC – O cenário global não foi otimista, visto que temos duas guerras, inflação, deflação e menos crédito. A era da abundância acabou e hoje vivemos uma 3ª guerra que é a climática e que já está impactando na vida das pessoas e das cidades. As duas maiores potências mundiais, China e EUA, emitem a maior quantidade de carbono do planeta e vêm sofrendo sanções por não estarem cumprindo o acordo de Paris. Atualmente, crescem menos ou estão vivendo uma crise social sem precedentes que afeta o consumo. Hoje, precisamos fazer mais com menos e com sustentabilidade.

 NV – A pauta ESG teve espaço significativo durante essa última edição da NRF? Como o papel do varejo nesta agenda foi discutido?

TCC – Foi comentada, mas não com profundidade. Sempre colocando a IA como a nova forma de aumentar a eficiência, produtividade, substituir tarefas chatas e que veio para ficar. Uma pena, porque para o varejo brasileiro seria uma oportunidade de ouvir como desenvolver o ESG. Ainda estamos longe dessa iniciativa. Muito se fala, mas pouco se faz com propriedade. As palestras de Lee Perterson e da Kate Ancketill foram as que trouxeram a importância do ESG como o futuro do consumo consciente e que levará a uma nova sociedade.

NV – Em algumas edições, a NRF tende a tratar a tecnologia a partir de uma ótica ‘futurista’, olhando para tendências que não necessariamente estão sendo aplicadas no momento, mas que podem vir a se tornar realidade no futuro. E em 2024, como a temática da tecnologia e inovação foi tratada?

 TCC – Concordo, sempre bem futurista e nem sempre aplicável na prática. Dessa vez, percebeu-se uma preocupação de apresentar cases reais e como a IA pode ser aplicada das mais diversas formas, de uso pessoal até como uma forma mais complexa para as organizações.

NV – Você acredita que o varejo nacional poderá aplicar boa parte das ‘recomendações’ da NRF 2024 ou a realidade tratada lá ainda está distante da brasileira?

TCC – Escrevi um artigo sobre a importância do fator humano e que a próxima NRF deveria acontecer no Brasil. Por quê? Podemos ensinar como gerar demanda num período de crise econômica e se relacionar mais com o shopper consumidor e gerar mais vendas recorrentes. Que os nossos colaboradores estão mais bem preparados para atender na loja física do que o mercado americano e muito mais. Precisamos dar valor menos ao quintal do vizinho e valorizar mais as conquistas brasileiras para elevar o nível de consciência. Ficou claro para os varejistas e participantes brasileiros que a IA é meio e não fim. Precisamos usá-la para as mais diversas formas, e que se transformará na nova revolução industrial.

 NV – Gostaria de te perguntar sobre as visitas técnicas realizadas pelo Ibevar. Quais cases mais te impressionaram nessas andanças? TCC – As visitas técnicas foram um caso à parte, como surpresas de posicionamento para atender um novo comportamento da sociedade, a exemplo da Abercrombie & Co., que mudou seu perfil de loja temática para um nova loja mais intimista e focada nas gerações que buscam menos exploração do corpo e mais sustentabilidade e comprometimento social da marca. A nova loja da Tiffany é deslumbrante. Após 4 anos de reforma, a LVMH, nova dona da marca, consegue unir o clássico com o que tem de mais contemporâneo aliado aos elementos digitais, como o painel 3D que envidraça a entrada principal e traz esculturas e artistas plásticos para unir beleza e cultura. Outro destaque é a loja da Petco que se reinventa com o que tem de mais moderno em customização, produtos, serviços e concierge para que o dono possa tratar ou cuidar do eu animal como um filho. Menos filhos e mais animais estão sendo projetados. A loja do Harry Porter é fantasia e mágica, em que você pode esquecer o mundo complexo que a sociedade está vivendo. Numa das ruas de NY cruzei com um carro autônomo e, ao pisar na faixa de pedestre, ele diminuiu a velocidade até parar e eu atravessar. Isso significa que teremos no futuro menos acidentes e que mudará o mercado automotivo, de seguros e serviços. As farmácias de cannabis viraram a sensação, uma das que visitei, a Gothan, oferece entretenimento e uma diversidade de produtos que impressiona, tais como: balas, goma de mascar, protetor labial, skin care, xampu, condicionador, itens para unhas e uma infinidade de produtos, além da manipulação de medicamentos e tratamentos a base de cannabis. Outra surpresa foi revisitar a loja da Apple que fica na 5ª avenida; ela traz para dentro da loja um acolhimento para você se sentar embaixo de árvores desidratadas. Me chamou a atenção o espaço de apresentações de produtos e serviços para que os interessados possam tomar a melhor decisão. E para fechar, outro destaque de sucesso é a loja da Wegmans Food Market, que traz um diferencial com as sessões de comidas prontas. Inclusive, o mercado imobiliário pesquisa onde será aberta uma nova loja para poder explorar novos empreendimentos. A qualidade, o atendimento, a variedade de produtos e segmentações das culinárias proporcionam ao consumidor uma experiência única e com custo- -benefício que agrega valor ao produto, promoção e serviço

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