Nos últimos anos, o ecossistema de startups voltadas ao setor automotivo começou a ganhar tração no Brasil, impulsionado principalmente pelo avanço da digitalização da cadeia, pela mudança de comportamento dos consumidores e pela crescente pressão por eficiência operacional em áreas como manutenção, compra de peças, logística e gestão de oficinas.
Dentro desse movimento, o Aftermarket Automotivo passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico. Afinal, trata-se de um mercado bilionário, altamente pulverizado e historicamente marcado por gargalos operacionais relacionados à compatibilidade de peças, fragmentação da distribuição, informalidade comercial e baixa integração tecnológica entre os diferentes elos da cadeia.
Ao longo da última década, esse cenário abriu espaço para o surgimento de startups focadas justamente em resolver dores estruturais do setor. Plataformas de compra e cotação de peças, marketplaces especializados, sistemas de gestão para oficinas, soluções de inteligência artificial para compatibilidade de componentes, ferramentas de relacionamento com reparadores e plataformas voltadas à manutenção de frotas começaram gradualmente a ganhar espaço no mercado de reposição brasileiro.
Apesar disso, diferentemente de outros segmentos da economia, o setor ainda não produziu unicórnios ou IPOs de grande escala. Segundo o cofundador e diretor da Liga Ventures, Daniel Grossi, isso acontece porque o Aftermarket Automotivo possui desafios particularmente complexos, envolvendo milhares de SKUs, aplicações técnicas, forte dependência logística e uma cadeia extremamente descentralizada. “É um mercado que sempre despertou muito interesse, mas que também apresenta muitas dores. A maioria dessas startups existe há mais de cinco anos e ainda está em fase de construção de tração e aculturamento do setor”, destaca o especialista.
Na visão de Grossi, o setor vive hoje um momento parecido ao que outros experimentaram há cerca de uma década: o mercado já reconhece a importância da digitalização, mas ainda atravessa uma etapa de amadurecimento operacional e cultural. Isso significa que boa parte das startups do aftermarket ainda precisa lidar com resistências ligadas à adoção de tecnologia, mudança de processos e integração entre empresas historicamente acostumadas a operar de maneira mais analógica.
Outro ponto importante é que a transformação do mercado de reposição não acontece, é claro, apenas pelo avanço das startups em si, mas também pelo interesse crescente de grandes empresas em se aproximarem do consumidor final e dos fluxos de manutenção automotiva. Bancos, seguradoras, locadoras e grandes frotistas passaram a enxergar a reparação, a compra de peças e os serviços automotivos como pontos estratégicos de relacionamento, fidelização e geração de negócios.
Esse movimento ajuda a explicar o crescente interesse de instituições como Santander, BV e Itaú pelo ecossistema de mobilidade, manutenção e serviços automotivos. Ao mesmo tempo, locadoras e gestores de frota passaram a pressionar o mercado por soluções mais eficientes de manutenção, rastreabilidade, controle de custos e disponibilidade de peças, criando espaço para plataformas especializadas em gestão operacional e integração da cadeia.
Segundo Grossi, o avanço dos marketplaces de peças e serviços também ajudou a acelerar a digitalização do setor. Assim como aconteceu em outros segmentos do varejo, consumidores, oficinas e empresas passaram gradualmente a aceitar jornadas de compra mediadas por plataformas digitais, reduzindo parte da resistência histórica do aftermarket ao ambiente online.
Ainda assim, o executivo ressalta que o setor continua sendo um dos mais complexos da nova economia. “Estamos falando de uma cadeia extremamente pulverizada, com múltiplos intermediários, milhares de aplicações de peças e um desafio logístico muito grande. Por isso, muitas startups conseguem avançar em nichos específicos, mas poucas escalam rapidamente”, afirma.
Com base em um levantamento da Liga Ventures concedido com exclusividade para nossa reportagem, reunimos algumas das principais startups brasileiras ligadas ao aftermarket automotivo.
ArsenalCar
Nicho de atuação: E-commerce de peças e acessórios automotivos
ArsenalCar atua como uma operação digital de varejo especializada em peças, acessórios e itens automotivos. Seu modelo está baseado na comercialização online de um portfólio amplo, com categorias que vão de iluminação, para-choques, grades e acessórios externos a itens de mecânica, elétrica, lataria, rodas, pneus, escapamentos e produtos para motos.
A startup está menos na criação de uma solução tecnológica de infraestrutura para a cadeia e mais na consolidação de um modelo de varejo digital especializado. A empresa representa o movimento de migração das autopeças para ambientes de e-commerce próprios, tentando competir com marketplaces generalistas a partir de sortimento técnico, navegação por categorias e atendimento voltado ao consumidor que já busca peças pela internet.
Canal da Peça
Nicho de atuação: Marketplace B2B/B2C de autopeças
O Canal da Peça é uma plataforma digital voltada à compra e venda de autopeças, acessórios, pneus, lubrificantes e componentes industriais. Seu modelo combina marketplace B2C e B2B, conectando consumidores, varejistas, distribuidores e marcas em um ambiente especializado para o setor de reposição.
A proposta da empresa é atacar uma das principais dores do aftermarket digital: a dificuldade de organizar tecnicamente a oferta de peças em um canal online confiável. Diferentemente de marketplaces generalistas, o Canal da Peça se posiciona como uma plataforma verticalizada, com foco na especificidade do mercado de autopeças e na curadoria de vendedores capazes de garantir procedência e originalidade dos produtos.
Para fabricantes, distribuidores e varejistas, a startup funciona como uma porta de entrada para o comércio eletrônico especializado. Além de ampliar o alcance comercial dos sellers, o modelo contribui para digitalizar uma cadeia historicamente fragmentada e dependente de vendas presenciais, telefone, balcão e catálogos pouco integrados.
Cilia
Nicho de atuação: Gestão de oficinas e sinistros automotivos
A Cilia atua na digitalização da reparação automotiva, especialmente nos fluxos de sinistro, orçamento, gestão de oficina e cotação de peças. Seu sistema atende oficinas, seguradoras e demais agentes envolvidos no processo de reparo, oferecendo ferramentas para orçamentação online, gestão visual do pátio, fluxo de serviços, backup de imagens, banco de laudos, assinatura digital e comunicação via WhatsApp.
O modelo de negócios da Cilia está fortemente ligado à profissionalização da oficina e à integração entre os diferentes agentes da jornada de reparação. Em vez de atuar apenas como um canal de venda de peças, a empresa se posiciona como uma infraestrutura operacional para o processo de sinistro e manutenção, conectando informações, documentos, aprovações, orçamentos e fornecedores.
Compre sua Peça
Nicho de atuação: Marketplace e busca de autopeças
O Compre sua Peça se apresenta como a primeira autotech do Brasil e atua como uma plataforma digital voltada à busca, cotação e comercialização de autopeças. Oferece 15 diferentes produtos inovadores através de um ecossistema abrangente. Seu modelo conecta consumidores, oficinas e fornecedores em um ambiente online estruturado para facilitar a localização de componentes automotivos e reduzir a dificuldade de compatibilidade entre peça e veículo.
Ao centralizar fornecedores e organizar a jornada de busca em um ambiente digital, a empresa busca reduzir etapas operacionais que, tradicionalmente, dependeriam de múltiplos contatos telefônicos, consultas manuais e relações locais de distribuição.
Partsfy
Nicho de atuação: Gestão de compras de autopeças
A Partsfy, antiga Cotexo, atua na digitalização da compra e venda de autopeças, conectando oficinas e fornecedores por meio de uma plataforma de cotação, comparação e gestão de compras. Seu modelo busca substituir processos tradicionais baseados em telefone, WhatsApp e múltiplas consultas manuais por uma operação mais auditável, transparente e tecnológica.
A startup se posiciona como uma solução para oficinas que precisam localizar peças, comparar fornecedores, acompanhar entregas e reduzir erros no processo de compra. A empresa afirma utilizar tecnologia e inteligência artificial para auxiliar na localização, cotação e acompanhamento das entregas, atacando dores como atraso, falta de transparência, perda de margem e baixa eficiência operacional.
Plataforma E-peça
Nicho de atuação: Marketplace de autopeças
A Plataforma E-peça é uma solução dedicada à venda online de peças e acessórios para diferentes tipos de veículos e máquinas. Sua proposta é permitir que empresas comercializem peças de carros, motos, caminhões, barcos, karts e outros equipamentos por meio de uma loja virtual própria.
A startup se encaixa no movimento de digitalização do varejo de autopeças por oferecer infraestrutura para que operações do setor levem seus catálogos ao ambiente online. Seu modelo é especialmente relevante para pequenos e médios vendedores que precisam estruturar presença digital sem necessariamente desenvolver uma plataforma própria do zero.
Peça Agora
Nicho de atuação: Logística e entrega rápida de autopeças
A Peça Agora atua como plataforma digital de distribuição de autopeças para caminhões, carretas, carros, ônibus e máquinas. Seu modelo combina catálogo digital, compra online, atendimento por WhatsApp, entrega em domicílio e programas de relacionamento, conectando demanda por peças à conveniência de uma jornada digital.
A startup se posiciona em uma dor clássica do aftermarket: a necessidade de encontrar e receber peças rapidamente para reduzir o tempo de veículo parado. Ao atuar com diferentes categorias de veículos, a empresa amplia seu mercado potencial e se aproxima tanto de consumidores finais quanto de oficinas e operadores que dependem de disponibilidade e agilidade.
Car10
Nicho de atuação: Rede de oficinas e manutenção automotiva
A Car10 atua como uma plataforma de serviços automotivos que conecta motoristas a oficinas mecânicas e prestadores de manutenção. Fundada em 2014, a empresa tem como proposta facilitar o acesso a suporte técnico e serviços de reparação, funcionando como uma camada digital entre consumidor, oficina e cadeia de manutenção.
Seu modelo de negócios dialoga com uma tendência importante do aftermarket: a intermediação da jornada de manutenção. Em vez de o consumidor escolher uma oficina apenas por proximidade ou indicação informal, plataformas como a Car10 buscam organizar a oferta de serviços, gerar confiança, facilitar o agendamento e estruturar uma experiência mais previsível.
Para oficinas, esse tipo de plataforma pode funcionar como canal de aquisição de clientes e como ferramenta de profissionalização comercial. Para o consumidor, a proposta está associada à redução de incerteza, à transparência na contratação e ao acesso mais simples a serviços de reparação e manutenção.
Topcar Tecnologia Automotiva
Nicho de atuação: Tecnologia para oficinas e reparação
A Topcar Tecnologia Automotiva oferece softwares de gestão para oficinas mecânicas, centros automotivos, moto centers, truck centers, autopeças, funilaria e pintura. Suas soluções são 100% em nuvem e incluem versões voltadas tanto a pequenas operações quanto a negócios maiores, com módulos de vendas, estoque, financeiro, contabilidade, CRM e suporte técnico.
A empresa atua em uma frente fundamental para o aftermarket: a gestão profissional de pequenas e médias empresas. Oficinas e lojas de autopeças ainda convivem com forte informalidade operacional, controles manuais e baixa integração entre estoque, atendimento, financeiro e relacionamento com clientes. Softwares como os da Topcar buscam reduzir esse gap.
O modelo de negócios se apoia na oferta de sistemas recorrentes para empresas do setor, funcionando como infraestrutura administrativa e comercial. Ao centralizar dados e processos, a plataforma ajuda oficinas e varejistas a ganhar controle sobre margens, peças, clientes, orçamentos e indicadores de desempenho.
Phi Company
Nicho de atuação: Tecnologia e gestão automotiva
Phi Company atua como uma plataforma B2B de fornecimento de autopeças voltada a veículos leves de locadoras, frotistas e seguradoras. Seu portfólio inclui peças mecânicas de manutenção preventiva e corretiva, lataria, iluminação e acessórios, com origens diversas, como genuínas, originais, aftermarket e reuso.
O diferencial do modelo está no foco em clientes corporativos com alto volume, recorrência e necessidade de controle. Frotas, locadoras e seguradoras demandam disponibilidade, padronização, rastreabilidade e redução de custos no fornecimento de peças. Ao atuar nesse nicho, a Phi Company se posiciona como uma solução para compras recorrentes e gestão de abastecimento.
A empresa também oferece soluções de vistoria e análise de dados, o que amplia seu papel para além da venda de peças.
SUIV
Nicho de atuação: Gestão de oficinas automotivas
A SUIV atua com informações veiculares por meio de tecnologias como banco de dados, big data, data analytics e API. Sua solução permite consultar informações técnicas, cadastrais, dados de acessórios, planos de revisão e outros conteúdos ligados ao veículo. Seu modelo pode atender diferentes elos da cadeia, de oficinas e autopeças a plataformas digitais, seguradoras, frotistas e empresas que precisam integrar dados veiculares aos próprios sistemas.
Rhino Auto Parts
Nicho de atuação: Distribuição e marketplace de autopeças
A Rhino Auto Parts atua na oferta de peças automotivas, itens de reposição, componentes de alta performance, acessórios, lubrificantes e ferramentas. Seu posicionamento está ligado à variedade de marcas, preços acessíveis e entregas rápidas. O negócio se insere na digitalização do varejo e da distribuição de autopeças. Assim como outros players de comércio eletrônico especializado, a Rhino busca competir a partir de sortimento, disponibilidade e conveniência de compra, aproximando o consumidor e a oficina de uma experiência mais direta e digital.
B2B Autoparts
Nicho de atuação: Marketplace B2B de autopeças
A B2B Autoparts atua com soluções de intermediação, representação e licenciamento para o mercado automotivo. Seu foco está na negociação e sincronização entre organizações e fornecedores, oferecendo soluções estratégicas para a cadeia de abastecimento.
Seu posicionamento é mais próximo de uma operação de inteligência comercial e conexão B2B do que de um marketplace transacional puro. A empresa busca facilitar relações entre fornecedores, distribuidores e organizações que precisam estruturar compras, parcerias ou canais de fornecimento no setor automotivo.
Hubbi
Nicho de atuação: IA e compatibilidade de peças
A Hubbi atua como uma plataforma especializada em autopeças, com foco em atender distribuidores, oficinas e revendedores. Segundo Liga Ventures, a empresa oferece um fluxo de compra transparente e simplificado, adaptado à realidade dos marketplaces atuais, mas com especialização no mercado de reposição. O modelo de negócios da Hubbi parte da ideia de que o aftermarket precisa de plataformas verticais, capazes de lidar com a complexidade técnica da peça automotiva. Diferentemente de produtos simples de varejo, autopeças exigem compatibilidade, disponibilidade, variedade de marcas, origem e aplicação correta. Ao se posicionar como marketplace especializado, a startup tenta reduzir essa fricção.
WEB PARTS
Nicho de atuação: Marketplace e gestão de compras de peças
A WEB PARTS atua com soluções digitais para o mercado de autopeças, incluindo e-commerce, marketing digital, gestão de estoque, controle de atendimento, relatórios de consumo, indicadores de mercado e programas de incentivo de vendas e compras. Seu posicionamento é voltado à digitalização comercial de operações do aftermarket. Em vez de atuar apenas como loja ou marketplace, a empresa se apresenta como uma solução para incremento de vendas e organização de canais digitais, ajudando negócios de autopeças a estruturar presença online e inteligência comercial.
Mercado Parts
Nicho de atuação: Marketplace e ecossistema de autopeças
A Mercado Parts oferece uma solução de suprimentos voltada a resolver problemas da jornada de manutenção de frotas. Seu modelo conecta fornecedores, locadoras, consumidores finais e frotistas por meio de uma plataforma integrada. A empresa atua em um segmento de alta relevância para o aftermarket: manutenção corporativa. Frotas precisam de disponibilidade, controle de custos, padronização, rastreabilidade e eficiência na compra de peças e serviços. A Mercado Parts se posiciona como uma camada digital para organizar essa demanda e conectar a cadeia de fornecimento.











