Artigo: Maturidade empresarial frente à reforma tributária ainda é incipiente -

Artigo: Maturidade empresarial frente à reforma tributária ainda é incipiente

As empresas estão em diferentes estágios de maturidade. E muitas sequer iniciaram ações estruturadas para se adaptar às novas exigências.
Crédito: Shutterstock

Por Waine Peron, sócio-líder de impostos da EY Brasil

Mais que uma disrupção nos fundamentos e regras, a reforma tributária exige uma transformação de processos e mentalidades. Seu objetivo central é simplificar o sistema tributário, reduzir distorções, aumentar a transparência e promover maior segurança jurídica para empresas e investidores. No entanto, essa simplificação aparente esconde uma complexidade que desafia rotinas, sistemas e estratégias empresariais.

Em meio a essa transição, a experiência em campo revela um padrão: as empresas estão em diferentes estágios de maturidade. E muitas sequer iniciaram ações estruturadas para se adaptar às novas exigências. Para mapear esse panorama, a EY realizou uma pesquisa com 170 alunos do Indirect Tax Academy (ITA) – profissionais que atuam com temas tributários em suas organizações. O resultado, extraído em três dimensões distintas de avaliação, oferecem visão ampla e representativa do mercado. A análise revela que, embora haja consciência sobre os impactos da RT, o nível de maturidade empresarial ainda é incipiente em diversas frentes de implementação, especialmente nas áreas de projeções financeiras e revisão de contratos.

Esse estudo é mais do que um retrato estatístico: é um alerta estratégico. A RT não será apenas uma mudança legislativa, mas um divisor de águas na forma como empresas operam, se relacionam com stakeholders e tomam decisões. E quem não se preparar tempestiva e adequadamente corre o risco de perder competitividade.

Baseado num panorama claro e ao mesmo tempo preocupante sobre o estágio atual de preparação das empresas brasileiras frente à RT, a pesquisa mostra que a média geral de maturidade nas três dimensões avaliadas (Negócios, Projeções Financeiras e Sistêmico) gira em torno de 1,6 em uma escala que vai de 1 (não iniciado) a 5 (concluído). Isso indica que, embora o tema esteja na pauta diária das empresas, a execução prática ainda está em fase embrionária.

Com médias variando entre 1,47 e 1,83, a dimensão de Negócios é a que apresenta os sinais mais evidentes de baixa maturidade. O dado mais crítico está no redesenho dos footprints logísticos (1,47), o que sugere que as empresas ainda não estão integrando tempestivamente o olhar tributário às decisões estratégicas de cadeia de suprimentos e o fim dos incentivos fiscais regionais.

Outro ponto de atenção é a análise de contratos com clientes e fornecedores (1,57), que permanece pouco explorada, apesar de ser frente sensível à adaptação dos negócios ao novo ambiente tributário. A preparação da função fiscal (1,77), por outro lado, aparece como uma das iniciativas mais adiantadas dentre as dimensões, refletindo o esforço das áreas técnicas de tax em se antecipar às exigências operacionais da transição.

A dimensão de Projeções Financeiras apresenta médias entre 1,37 e 1,63, demonstrando um avanço tímido no uso de dados para modelagens, projeções e planejamento. A avaliação de preços no pós-reforma (1,37) é o item com menor maturidade entre todos os avaliados, o que pode comprometer decisões de precificação, margem e competitividade. A modelagem tributária (1,50 a 1,63) e a revisão de créditos tributários (1,50) também estão em estágio inicial, o que representa um risco direto ao fluxo de caixa e à capacidade de monetização de ativos fiscais, como créditos acumulados de ICMS e PIS/COFINS.

Curiosamente, a dimensão Sistêmica apresenta os maiores índices de maturidade, com destaque para o mapeamento das operações sujeitas aos novos tributos (1,87) e os requisitos da NF-e (1,83). Isso demonstra que as empresas estão priorizando a conformidade técnica, muitas vezes impulsionadas por fornecedores de ERP e obrigações acessórias. Entretanto, o saneamento de cadastros (1,33) e o plano de transição sistêmico (1,70) ainda carecem de atenção. A falta de dados limpos e estruturados pode comprometer a qualidade das entregas fiscais e gerar retrabalho no momento da virada de chave.

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