Se você acompanhou a Copa do Mundo deste ano, provavelmente percebeu um fenômeno curioso. Seja na narração das partidas ou em inserções relâmpago enquanto a bola rolava, as apostas esportivas se faziam sempre presentes.
Em muitos momentos, a sensação era de que a emoção do jogo já não bastava por si só e precisava ser complementada por uma nova camada de entretenimento. Isto é, a possibilidade de apostar no próximo gol ou em qualquer outro mínimo acontecimento, como um escanteio ou cartão amarelo.
A ideia de tornar competições esportivas mais envolventes por meio de previsões, evidentemente, está longe de ser uma novidade. Afinal, há décadas bolões movimentam famílias e grupos de amigos durante os torneios. Sem falar na antiga loteria esportiva e sua infalível zebrinha no Fantástico. Embora os jogos de azar sejam proibidos no Brasil, sempre houve caminhos – lícitos ou não – para apostar e perder algum dinheiro.
A diferença é que esse comportamento deixou de ser uma brincadeira informal para dar origem a uma indústria bilionária e altamente profissionalizada. Impulsionado pela popularização dos aplicativos de apostas durante a pandemia de Covid-19 e consolidado após a regulamentação do setor, o mercado de bets entrou em uma trajetória de crescimento acelerado no Brasil.
Dados do Ministério da Fazenda mostram que, somente em 2025, a receita bruta das apostas (Gross Gaming Revenue – GGR) alcançou aproximadamente R$ 37 bilhões, gerando cerca de R$ 9,95 bilhões em tributos federais e R$ 2,5 bilhões em outorgas de autorização.
Quando se observa o volume total de recursos movimentados pelas plataformas, os valores seguem sendo impactantes. Estimativas apresentadas pelo Banco Central indicam que o setor movimenta atualmente entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em apostas, o equivalente a um mercado anual próximo de R$ 240 bilhões – bem mais que o dobro do Aftermarket Automotivo.
Esse avanço também aparece no comportamento dos consumidores. A pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima – Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, mostra que a parcela da população que declara apostar passou de 14% em 2023 para 17% em 2025, enquanto cresceu também a participação de apostadores classificados em níveis de moderado ou elevado risco para dependência.
Bets são motor por trás do endividamento recorde
Foto: Imagem gerada por IA para uso editorial
O Brasil atravessa um dos momentos de maior endividamento das famílias desde o início dos levantamentos realizados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Pressionado por fatores como juros elevados, crédito caro, inflação acumulada em diferentes categorias de consumo e perda de poder de compra, o orçamento doméstico vem se tornando cada vez mais restrito. Nesse cenário, qualquer nova despesa recorrente passa a disputar espaço com gastos tradicionalmente destinados ao consumo, aos serviços e até mesmo à manutenção de patrimônio.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida em abril de 2026, o maior percentual desde o início da série histórica.
No mesmo período, 29,7% afirmaram possuir contas em atraso e 12,3% disseram não ter condições de quitar seus débitos. Paralelamente, o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas alcançou 29,7%, enquanto o endividamento total das famílias chegou ao recorde de 49,9% da renda anual, evidenciando que uma parcela cada vez maior do orçamento já está comprometida antes mesmo das despesas cotidianas serem pagas.
É neste contexto que as apostas esportivas se consolidaram como um motor perigoso, já que de um gasto antes associado ao entretenimento ocasional, as bets passaram a drenar do consumo brasileiro o equivalente a 96% do faturamento das 10 maiores redes do setor.
Um estudo econométrico da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), citado recentemente pelo Senado Federal, estima que cerca de R$ 30 bilhões por mês deixaram de circular no consumo tradicional para abastecer plataformas de apostas online.
Com base nesses números, a economista Catarina Carneiro, da CNC, destacou que as apostas deixaram de ocupar um espaço marginal dentro do orçamento familiar e passaram a competir diretamente com outras despesas do dia a dia. “As apostas online deixaram de ser um gasto de entretenimento residual e passaram a atuar como um dreno severo na restrição orçamentária das famílias brasileiras, afetando de forma desproporcional as classes de menor renda”, pontuou Carneiro.
Em complemento à análise da sua economista, a CNC também apontou que a expansão desse mercado elevou em 12,2 pontos percentuais a probabilidade de uma família declarar que não consegue pagar suas dívidas e contribuiu para um aumento de aproximadamente 45% no tempo médio de atraso das contas.
Reparação sente efeitos do orçamento apertado, mas evita atribuir fenômeno diretamente às bets
Embora as pesquisas sobre o mercado de apostas apontem para uma crescente pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras, o setor de reparação automotiva ainda evita estabelecer uma relação direta entre esse movimento e a demanda das oficinas mecânicas. Para o presidente do Sindirepa-SP, Antonio Fiola, ainda não é possível afirmar que as bets estejam provocando, por si só, mudanças no comportamento dos consumidores quando o assunto é manutenção automotiva.
Para ele, o que pode ser observado é um fenômeno mais amplo. Sempre que o poder de compra das famílias diminui, independentemente da causa, a tendência é que os proprietários de veículos passem a adiar manutenções preventivas e concentrem seus recursos apenas nos reparos indispensáveis para manter o automóvel em funcionamento.
“Não conseguimos detectar um reflexo direto ligado às apostas esportivas. No entanto, quando o endividamento da população aumenta, há uma redução natural do poder de compra. Nesse cenário, a manutenção do veículo tende a ser postergada, e o consumidor passa a realizar apenas o essencial para manter o carro em funcionamento, priorizando reparos em itens críticos que comprometem sua operação”, explicou Fiola.
Na avaliação do dirigente, esse comportamento faz parte da dinâmica histórica do setor. Em momentos de maior restrição orçamentária, consumidores tendem a rever despesas consideradas adiáveis, enquanto reparos capazes de impedir o veículo de circular continuam sendo realizados por necessidade. “Quando o orçamento aperta, é comum restringir gastos com manutenção”, resumiu o dirigente.
Essa mudança de prioridades também altera o perfil dos serviços realizados nas oficinas. De acordo com Fiola, componentes cuja substituição pode ser adiada por algum período costumam ser os primeiros afetados. “Em geral, são adiados os serviços relacionados a componentes que não estão diretamente ligados ao funcionamento imediato do veículo, como pneus, suspensão, lataria amassada, ar-condicionado e troca de óleo”.
Números da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) dão indícios desse cenário ao apontar que as vendas de pneus produzidos no Brasil para o mercado de reposição recuaram 7% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O desempenho foi influenciado pelo avanço das importações, que vêm ampliando a concorrência no setor, mas também reforça a percepção de um mercado de reposição mais pressionado do que nos últimos anos.
Para Fiola, apesar dessas oscilações, a reparação automotiva continua apresentando uma característica que a diferencia de boa parte dos demais segmentos do setor de consumo.
O Brasil possui uma frota superior a 60 milhões de veículos, que, sobretudo por ter uma média de idade superior a uma década, inevitavelmente continuará demandando manutenção ao longo do tempo. Por isso, embora consumidores possam adiar alguns serviços, a necessidade de manter o automóvel em funcionamento acaba funcionando como um importante fator de sustentação da atividade.
“Itens como uma junta homocinética quebrada, problemas na parte elétrica e mecânica do motor, motor de partida, bateria e alternador, não podem ser postergados. No fim das contas, a necessidade do consumidor de manter o carro em funcionamento é o que sustenta o setor e faz a roda girar”, finalizou Fiola.
Parte do poder público se mobiliza para apertar o cerco às apostas online
O crescimento acelerado das apostas esportivas e os sucessivos estudos apontando seus impactos sobre o orçamento das famílias também provocaram uma mudança de postura do poder público. Se, nos primeiros anos após a regulamentação, o foco esteve na organização do mercado e na criação de regras para operação das plataformas, mais recentemente o governo federal passou a adotar medidas voltadas à proteção dos consumidores e à redução dos riscos associados à atividade.
Uma das iniciativas mais recentes foi o bloqueio do acesso às plataformas de apostas para 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC). A medida, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e operacionalizada pelo Ministério da Fazenda, obriga as empresas autorizadas a consultar periodicamente uma base oficial de CPFs, impedindo novos cadastros e suspendendo contas vinculadas a esses programas de transferência de renda. O objetivo é evitar que recursos destinados à proteção social sejam utilizados em apostas.
Paralelamente, o governo também endureceu as regras para a comunicação das empresas do setor. Neste último mês, entrou em vigor uma nova portaria estabelecendo advertências obrigatórias em todas as peças publicitárias das bets. Entre elas, mensagens como “Apostar pode causar dependência”, além de alertas sobre os riscos financeiros e psicológicos associados à prática. A medida aproxima a publicidade das apostas do modelo já adotado em segmentos considerados sensíveis, reforçando a necessidade de que o consumidor compreenda os riscos envolvidos antes de apostar.
O endurecimento das regras, porém, não ficou restrito às plataformas autorizadas. Em junho, o governo federal anunciou um novo decreto que obriga bancos, fintechs e demais instituições de pagamento a bloquear recursos financeiros vinculados a casas de apostas ilegais sempre que forem notificadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a medida busca retirar a sustentação financeira dessas operações e foi motivada pela identificação de cerca de 300 operadores responsáveis por quase 50 mil sites de apostas derrubados, que utilizavam 37 instituições financeiras para movimentar recursos. As instituições notificadas passam a ter até 24 horas para bloquear as contas e 48 horas para comprovar o cumprimento da determinação, sob supervisão do Banco Central.
As novas exigências se somam ao processo de regulamentação iniciado pelo governo federal, que passou a exigir autorização para funcionamento das plataformas, regras mais rígidas de identificação dos usuários, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, políticas de jogo responsável e procedimentos voltados ao combate ao vício e à proteção de públicos vulneráveis.
Ao lado das restrições à publicidade e do bloqueio de beneficiários de programas sociais, o cerco às operações clandestinas evidencia uma mudança de enfoque: mais do que regulamentar um novo mercado, é preciso concentrar esforços na mitigação de seus impactos econômicos e sociais.
Ainda é cedo, porém, para medir a efetividade dessas iniciativas. O próprio mercado de apostas continua em seu processo contínuo de expansão e adaptação, de modo que os efeitos das novas regras deverão ser observados apenas nos próximos anos.











