O acirramento da concorrência no Aftermarket Automotivo faz com que o campo de batalha do varejo não se restrinja mais apenas a balcão e prateleiras. Hoje, os embates também se dão nos algoritmos.
A ascensão dos marketplaces é o vetor dessa transformação. Até pouco tempo, o domínio era quase absoluto de uma única plataforma. Mas a entrada agressiva da Shopee no aftermarket brasileiro reconfigurou o jogo. Com crescimento de 80% nas vendas da categoria Auto & Moto entre 2023 e 2024, avanço de 300% nas buscas por autopeças e mais de 40 marcas com lojas oficiais, o digital há muito deixou de ser promessa e virou território estratégico.
E, mais preocupante: as plataformas abriram as porteiras para que as montadoras entrassem com tudo na briga. A chegada de operações oficiais como as da Chevrolet e, mais recentemente, o movimento estruturado da Stellantis — que levou as marcas Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram para dentro da Shopee — não são iniciativas isoladas. São peças de uma engrenagem maior: capturar valor no pós-venda por meio de canais digitais de alto tráfego. Não por acaso, a Stellantis já projeta saltar de cerca de R$ 200 milhões para R$ 300 milhões em vendas no e-commerce automotivo em apenas um ano.
E o varejo independente, como fica nesse jogo pesado? A resposta, por enquanto, é menos dramática do que poderíamos imaginar. Apesar do avanço das indústrias no digital, a ruptura da cadeia ainda está distante. Modelos D2C (direct-to-consumer) seguem representando apenas 5% das vendas online no Brasil. Mesmo em mercados mais maduros, como os Estados Unidos, o índice é de 15% — longe de configurar uma desintermediação plena.
Vender direto exige competências que vão além da fabricação: aquisição de tráfego, operação logística, atendimento ao cliente, gestão de garantias, relacionamento contínuo. Estudos de consultorias como KPMG e BCG apontam que essas barreiras ainda limitam o avanço das indústrias em direção a um modelo totalmente desintermediado. Mais do que isso: há risco claro de canibalizar parceiros históricos — distribuidores, varejistas e oficinas — que seguem sendo essenciais para a capilaridade do negócio. Por isso, o que emerge não é uma ruptura, mas um modelo híbrido.
As chamadas “lojas oficiais” nos marketplaces são, ainda, um arranjo que preserva a lógica da cadeia tradicional enquanto explora o potencial do digital. Em geral, são os próprios distribuidores e varejistas autorizados que operam a venda final — a chamada última milha — nessas estruturas. No caso das montadoras, tudo passa pelas concessionárias.
Mas seria um erro do varejo interpretar o movimento como uma zona de conforto. Porque, se a cadeia não está sendo quebrada, ela está sendo reorganizada. O controle da jornada — da busca à decisão de compra — começa a migrar para dentro das plataformas. E, nesse ambiente, marca, preço, reputação e disponibilidade passam a ser mediados por algoritmos, avaliações e experiência digital. Não basta apenas ter o produto. É sobre ser encontrado. Portanto, aproveite bem o tempo que este período de transição vai lhe proporcionar para traçar uma estratégia matadora no ambiente digital. Está claro que o aftermarket virou prioridade para as montadoras. E, quando isso acontece, a concorrência muda de patamar.










