Escassez de mão de obra e IA incipiente encabeçam clima de cautela no varejo -

Escassez de mão de obra e IA incipiente encabeçam clima de cautela no varejo

Destaques globais no CEO Survey da PwC, questões são parte da realidade do Aftermarket Automotivo brasileiro

No início deste mês de março, a PwC, uma das maiores consultorias do mundo, apresentou os dados do estudo CEO Survey. Nesta edição, a 29ª da principal pesquisa global sobre a percepção de executivos, a empresa entrevistou mais de 4.400 líderes espalhados por 95 países do globo, incluindo, claro, o Brasil. Em sua versão brasileira, aliás, o estudo comparou as percepções dos CEOs do país com os do restante do mundo, oferecendo um panorama abrangente sobre os desafios e as expectativas do setor de varejo e consumo.

Logo no início, a pesquisa marca o tom de cautela que deve orientar o setor ao longo de 2026. Isso porque, tanto no recorte global quanto no doméstico, os executivos se mostraram menos confiantes quanto à capacidade de suas empresas aumentarem as receitas, seja ao longo deste ano ou no acumulado do próximo triênio.

No Brasil, o clima de ceticismo é ainda maior no comparativo com a média global, com apenas 38% dos CEOs esperando uma melhora de receita no recorte anual e 46% com expectativas positivas para os próximos três anos. Embora possa ser esperado algum nível de volatilidade nas projeções, o resultado indica um crescente pessimismo em relação ao survey do ano passado, quando o percentual dos que esperavam alta nos respectivos recortes foi de 50% e 49%.

De acordo com o estudo, três grandes riscos dominaram a agenda menos confiante e mais defensiva: a instabilidade macroeconômica, a inflação e a escassez de talentos. Logo atrás desses fatores, historicamente familiares na avaliação de risco do empresariado brasileiro, está um componente crescente: as preocupações quanto aos riscos cibernéticos e a disrupção tecnológica.

Segundo o estudo da PwC, cerca de 30% dos executivos do setor já se declaram altamente expostos a esses riscos, reforçando que a transformação digital deixou de ser apenas uma frente de eficiência para se tornar também uma fonte relevante de vulnerabilidade operacional.

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scassez de talentos é preocupação crescente no Brasil

O fato da escassez de talentos ter sido citada entre os principais riscos pelos CEOs ouvidos pela PwC não surpreende, sobretudo quando falamos do cenário nacional. No terceiro trimestre do ano passado, dados da CNC – Confederação Nacional do Comércio indicavam que 77,3% das empresas do varejo ampliado enfrentavam dificuldades para contratar ou reter profissionais, o maior patamar dos últimos cinco anos.

O dado ganha ainda mais relevância quando analisado em conjunto com o nível de desemprego no país. Naquele momento, o Brasil registrava uma taxa próxima de 5,8%, uma das menores da série histórica recente.

Na prática, isso significa que o problema deixou de ser a falta de emprego e passou a ser a falta de profissionais com qualificação, interesse ou disponibilidade para atuar no varejo, um movimento que afeta diretamente a capacidade de expansão e operação das empresas.

Em setores como os supermercados, o quadro é ainda mais dramático. Segundo entidades do setor, 8 a cada 10 operações já enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores, especialmente em funções operacionais. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Erlon Ortega, a escassez de mão de obra tem se tornado um dos principais entraves para a expansão e até para o funcionamento pleno das lojas.

“Hoje, a maior dificuldade do setor não é abrir novas lojas, mas conseguir pessoas para trabalhar nelas”, afirma o dirigente.

Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra que a escassez atinge oito das dez principais ocupações do setor supermercadista, que juntas representam cerca de 70% da força de trabalho das lojas, evidenciando que o problema está concentrado justamente nas funções essenciais para a operação.

Entre os cargos mais afetados estão operador de caixa, repositor, açougueiro e padeiro, posições diretamente ligadas ao atendimento ao cliente e ao abastecimento das gôndolas. Na prática, isso significa que a dificuldade de contratação impacta o funcionamento cotidiano das lojas, com reflexos na reposição de produtos, no tempo de atendimento e na experiência de compra.

Mudanças

Outro ponto destacado no levantamento é que a escassez não decorre de um único fator, mas de uma combinação de mudanças estruturais no mercado de trabalho, como a menor atratividade dessas funções, a busca por jornadas mais flexíveis e a migração de trabalhadores para outras atividades.

Para aliviar o problema, as entidades representativas do segmento firmaram um acordo com o governo federal para facilitar a contratação de beneficiários do Cadastro Único, permitindo que empresas tenham acesso a uma nova base de trabalhadores e, ao mesmo tempo, promovendo inclusão produtiva.

Apesar de se destacar no âmbito dos supermercados, segmento em que, até pelo volume, o impacto da escassez se torna mais visível e mensurável, a escassez de mão de obra é uma realidade igualmente crítica no varejo e na distribuição de autopeças.

Não por acaso, o tema foi destaque absoluto do último Fórum IQA da Qualidade Automotiva, realizado em outubro do ano passado. Durante o evento, lideranças de entidades do Aftermarket Automotivo, incluindo Sincopeças-SP, Sicap, Sindirepa e Andap, reforçaram que o setor já enfrenta dificuldades estruturais para atrair e reter profissionais qualificados.

Segundo o presidente do Sincopeças-SP, Heber Carvalho, o aftermarket vive um descompasso crescente entre a demanda por profissionais e a capacidade de formação de novos talentos, o que tende a se agravar nos próximos anos. Corroborando o colega, o presidente do Sicap e vice da Andap, Alcides Acerbi Neto, destacou que a dificuldade não está apenas na contratação, mas também na qualificação da mão de obra, especialmente diante da crescente complexidade técnica dos veículos e dos produtos comercializados.

A capacitação e o incentivo à formação profissional contínua foram pontos comuns das discussões como forma de combater gargalos históricos do setor, como a informalidade e a baixa atratividade de algumas funções operacionais, que dificultam a renovação da força de trabalho.

Vale dizer ainda que varejo e atacado estão longe de serem os únicos elos do Aftermarket Automotivo a sofrerem com esse cenário: notadamente as oficinas mecânicas independentes enfrentam dificuldades ainda maiores para encontrar profissionais qualificados. O tema, aliás, é alvo de uma preocupação a mais dada a necessidade de especialização técnica crescente, em meio ao aumento da frota de carros elétricos e à incorporação de novas tecnologias embarcadas nos veículos.

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Inteligência artificial ainda é tema de longo prazo no varejo

Como não podia ser diferente, a Inteligência Artificial foi outro tema muito presente no 29º CEO Survey da PwC. Ao longo do estudo, a tecnologia aparece como um dos principais vetores de transformação do setor de varejo e consumo, ainda que em estágio de consolidação, com empresas buscando equilibrar investimentos com ganhos de eficiência.

Empresas brasileiras e internacionais se mostraram dispostas a ampliar o uso da IA como ferramenta estratégica para reinvenção dos negócios, mesmo que os resultados práticos avancem em ritmo mais gradual do que o esperado. Além disso, a tecnologia já começa a gerar impactos positivos em parte das organizações, sobretudo na geração de receita e na otimização de processos.

Entre as áreas que receberam mais investimentos, estiveram iniciativas ligadas à automação de processos, uso de dados e melhoria da eficiência operacional, ainda que o estudo não aponte verticalizações específicas por função dentro do varejo.

No meio do caminho entre a intenção e a colheita de resultados maduros, no entanto, ainda existe um gap – sobretudo quando comparamos com outros setores da economia, como a indústria, onde a IA tem impulsionado redução de desperdício e ganho de produtividade por meio de tecnologias ligadas à manufatura inteligente como a metrologia óptica e a robótica.

De acordo com o relatório da PwC, apenas 34% dos CEOs do setor de varejo e consumo no Brasil relataram aumento de receita associado ao uso de IA, enquanto 66% indicaram pouca ou nenhuma alteração, o que reforça que a maior parte das empresas ainda está em fase de adoção ou maturação das soluções. Além disso, o percentual de líderes que obtiveram redução de custos (28%) ficou bem próximo daqueles para os quais os custos aumentaram (22%), reflexo direto dos investimentos necessários em tecnologia, infraestrutura e capacitação.

Gargalos

Embora os resultados ainda estejam em consolidação, os líderes mantêm otimismo quanto à capacidade da tecnologia solucionar alguns gargalos importantes do setor, tal como a própria escassez de mão de obra.

O estudo mostrou que 72% dos CEOs esperam reduzir profissionais de entrada ao longo do próximo triênio, com expectativas de redução que chegam a robustos 16% em parte significativa das empresas, indicando que a IA tende a substituir atividades mais operacionais e repetitivas. Já para os cargos mais sêniores, o impacto esperado é significativamente menor, reforçando a tendência de valorização de funções estratégicas e analíticas no novo contexto tecnológico.

Quando trazemos a discussão para o universo do varejo automotivo nacional, os cases ainda são pontuais e concentrados em players mais digitalizados ou com maior capacidade de investimento em tecnologia. Apesar disso, segmentos como classificados automotivos, marketplaces e grandes plataformas digitais já começam a incorporar IA em etapas críticas da jornada de compra e venda.

Empresas como a OLX, por exemplo, têm utilizado inteligência artificial para melhorar a experiência do usuário, desde a recomendação de veículos até a precificação e análise de anúncios, tornando o processo mais eficiente tanto para vendedores quanto para compradores. Segundo seu vice-presidente, Flavio Passos, a tecnologia tem papel central na redução de fricções e no aumento da assertividade das transações dentro da plataforma.

O executivo conta que o uso de dados e algoritmos permite entender melhor o comportamento do consumidor, antecipar demandas e oferecer sugestões mais alinhadas ao perfil de cada usuário, o que impacta diretamente a conversão e a qualidade das negociações.

A mesma lógica começa a ganhar espaço no Aftermarket Automotivo, onde distribuidores, marketplaces e plataformas especializadas se utilizam de algoritmos para melhorar a identificação de peças, reduzir erros de compra e otimizar estoques e processos logísticos.

Tudo, no entanto, parece estar ainda em estado incipiente. Bem distante da realidade de países como Canadá e Estados Unidos, onde cerca de 80% dos revendedores já utilizam algum tipo de inteligência artificial em suas operações, seja para precificação, gestão de estoque, recomendação de produtos ou atendimento ao cliente.

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