Estoques infinitos: oportunidade para novo posicionamento de pequenos e médios varejistas

Especialista em logística e inovação, Ana Debiazi destaca busca de grandes marcas por mais capilaridade e proximidade com os clientes

Lucas Torres [email protected]

O fortalecimento do e-commerce, que hoje representa mais de 12% das vendas do varejo brasileiro, trouxe desafios importantes a serem transpostos pelo setor tanto sob o ponto de vista da experiência do consumidor como da organização do ecossistema das empresas dos diferentes elos que o compõe.

No campo da experiência, grita a necessidade de atender no digital o sentimento de urgência do consumidor na hora de uma compra por impulso ou necessidade. É possível, por exemplo, entregar um produto no mesmo dia da compra? Ou melhor, no mesmo período do dia?

Já no campo sistemático, o boom dos marketplaces ofereceu às indústrias e marcas a oportunidade de romperem a ordem tradicional da cadeia varejista ao atuarem na ponta, não apenas estreitando a relação com os consumidores finais, mas também concluindo as vendas.

Em ambas as questões, a logística se coloca como ponto fundamental. Afinal, são seus mecanismos que permitem aos vendedores – sejam eles marcas ou varejos – entregar a melhor e mais veloz experiência de compra ao cliente, bem como possibilitam que os varejistas encontrem um novo lugar sustentável na cadeia de consumo e não apenas sobrevivam, mas se mantenham relevantes.

Para discutir estas transformações do comércio, convidamos a CEO da Leonora Ventures, Ana Debiazi, para compartilhar suas impressões da prática da logística no setor com base nos cases das chamadas LogTechs (startups especializadas em logística) e RetailTechs (startups especializadas em varejos) que apoia. Durante a conversa, a especialista mostrou otimismo quanto a uma reconfiguração sustentável do varejo e citou justamente a logística como um dos pontos mais marcantes de um momento que considera promissor e cheio de oportunidades para pequenos e médios empresários.

Novo Varejo – Nos últimos dois anos, o varejo passou a conviver com uma intensificação do tema da experiência do consumidor no seu dia a dia. Qual foi o papel da logística neste desafio?

Ana Debiazi – De fato, tivemos uma virada de mesa dos varejistas quando eles passaram a colocar os consumidores no centro de tudo e a pandemia intensificou muito este processo. Foi preciso que as empresas mostrassem quem elas eram, que estavam presentes e que estavam fazendo bem para que não ‘morressem’ naquele momento. E, neste sentido, um dos principais pontos desta experiência é a entrega. Ok: o cliente entrou no site, gostou do produto, do preço, do frete… Mas será que é possível entregar para que ele use aquele produto no mesmo dia? Os grandes varejistas mostraram que era possível. Afinal, eles têm, acima de tudo, dinheiro para fazer com que isso aconteça.

NV – Você enfatizou bem. Os grandes conseguiram responder a este desafio. Mas e os médios e pequenos? O quanto o fato de o consumidor estar ‘mal acostumado’ com essa capacidade de entrega quase imediata pressiona essas empresas com menos poder de investimento?

AD – Isso, para mim, é muito positivo para o pequeno varejista. O pequeno precisa surfar nessa onda que, neste momento, ele não está enxergando nem qual é. E que onda é essa? A resposta está no que a gente chama de estoque infinito. Vamos pensar: o que faz um grande varejista entregar um produto em duas horas sem ter de investir para contar com um centro de distribuição em cada uma das principais cidades do país? Este estoque infinito pode ser o varejista! Ele pode ser este player que tem estes produtos à disposição e está perto o suficiente para entregá-los com a agilidade que o cliente quer.

NV – Interessante, é como se a roda se invertesse, não? Uma grande marca ou um grande varejo passa a estabelecer o relacionamento com o varejista não mais como fornecedor, mas como um parceiro que impulsiona a venda do produto a partir de uma relação direta com o cliente e conta com o varejista para fornecer o produto em si e a entrega. É isso mesmo?

AD – É exatamente isso. Inclusive se inverte a ordem da procura. No começo do processo de digitalização e da popularização dos marketplaces, os varejos buscavam as plataformas. Hoje os grandes varejistas estão em busca destes menores para ter este estoque na ponta. Aqui dentro do grupo, por exemplo, a gente já começou este movimento várias vezes – chamar o pequeno varejista e dizer “nós conseguimos fazer isso com você, nos dê essa abertura. Nos ajude a entregar, tenha o estoque, que a gente te garante a venda”. Além de oferecer este last mile para os grandes varejos, as parcerias também são formas de diminuir o impacto de uma quebra de cadeia que está ocorrendo com o avanço do e-commerce com, como eu disse, grandes marcas e indústrias passando a estabelecer uma relação direta de venda junto ao consumidor final.

NV – A oportunidade parece ser clara. Mas como o varejista pode se articular junto a esses grandes players para entrar neste circuito do ‘estoque infinito’?

AD – A primeira coisa é gestão. O varejo tem que ser capaz de dizer, “eu tenho o meu controle de estoque aqui, eu consigo integrar o meu estoque com o seu sistema para que quando entre uma venda pelo seu e-commerce, você consiga acessar o meu estoque e me considerar como um varejista apto a entregar com agilidade”. O pequeno e o médio varejista precisam começar a se movimentar. Eu sei que, muitas vezes, o pequeno empresário possui uma estrutura familiar em que o proprietário é o mesmo que abre a loja, é o caixa, é o almoxarife, faz compras, às vezes que atende… Mas ele precisa pensar que, para não morrer, ele necessita passar por uma transformação digital. Quando ele passa a ter controle de gestão, mostra isso para os seus fornecedores; “cara, eu tenho como fazer isso por você”. Um segundo requisito, depois da gestão, é o Last Mile – ou seja, a capacidade de entregar. Se o varejista quer, realmente, começar a atender vários fornecedores, precisa oferecer essa perna final. Neste âmbito, ele deve entender quais são estas empresas e os profissionais que estão na perna final com quem pode firmar parceria, seja um Rappi ou um grupo de motoboys.

NV – Além da dinâmica de estruturação da cadeia do varejo trazida pelas evoluções tecnológicas e o avanço do e-commerce, a logística neste setor também nos parece estar prestes a sofrer uma revolução em termos de modal de transporte de entrega. Tanto com a automação veicular, quanto com os drones. Você vê alguma destas novidades como uma realidade no médio prazo aqui no Brasil?

AD – O drone já é bem realidade quando a gente fala de last mile, que é, realmente, a última perna. A gente já tem visto vários testes! Esta pauta está avançando bastante no mercado israelense, assim como no mercado americano – dois polos que costumam estar sempre à frente, conduzindo as próximas tecnologias que vão aparecer e se disseminar no mundo todo. Gestores preocupados com cidades inteligentes já vêm investindo nos drones. Assim como aqueles que se preocupam com as pautas verdes, de sustentabilidade – serem limpos, serem verdes. Vamos começar a ver muito mais drones voando nos próximos anos. Ainda temos uma regulamentação brasileira a ser sanada. Mas eu acredito que o drone vem com tudo.

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