A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) lançou a cartilha Inspeção Técnica Veicular: um estudo de impactos na economia brasileira, que evidencia o potencial da política pública para reduzir mortes no trânsito, estimular a economia e gerar ganhos ambientais. O estudo reúne dados oficiais e simulações econômicas para defender a ampliação da inspeção periódica da frota nacional.
A publicação aponta que, mesmo com redução relativamente pequena dos acidentes fatais, os benefícios econômicos e sociais da medida já superariam os custos de implementação. A cartilha é uma iniciativa da Câmara Brasileira do Comércio de Peças e Acessórios para Veículos (CBCPAVE), da CNC, sob a coordenação de Ranieri Palmeira Leitão.
Nas últimas décadas, o Brasil registrou expansão expressiva da frota de veículos. Em 2023, o País ultrapassou 60 milhões de automóveis e 119,2 milhões de veículos no total, incluindo motocicletas. Em comparação com 1998, isso representa um crescimento de 250% no número de carros e de 390% no total da frota.
Esse avanço ocorreu em ritmo muito superior ao da renda média da população, que cresceu 110% no mesmo período, gerando impactos diretos na mobilidade urbana, na sustentabilidade ambiental e, sobretudo, na segurança no trânsito.
Segundo a cartilha, o aumento da circulação de veículos está diretamente associado ao crescimento dos acidentes fatais, especialmente entre condutores e passageiros de veículos automotores.
Mudança do perfil das vítimas
O estudo destaca uma transformação significativa no perfil das mortes no trânsito. Em 1996, apenas 14% dos óbitos por acidentes de transporte envolviam ocupantes de veículos automotores. Em 2023, esse percentual saltou para 61%.
No mesmo ano, foram registradas 22.034 fatalidades envolvendo veículos automotores. O pico da série histórica ocorreu em 2014, com 24.138 mortes.
Apesar da redução de atropelamentos e acidentes com veículos não identificados ao longo do tempo, o aumento proporcional de mortes entre motoristas e passageiros evidencia a necessidade de políticas voltadas à segurança veicular.
O cenário brasileiro também reflete uma tendência regional. Relatórios da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) indicam que as Américas não conseguiram reduzir pela metade as mortes no trânsito, como previa a meta global da Organização Mundial da Saúde.
Custo-benefício
A cartilha apresenta uma análise econômica detalhada da implementação da Inspeção Técnica Veicular (ITV). Com base no conceito de Valor de Vida Estatístico (VVE), estimado em R$ 3,03 milhões, o custo das mortes no trânsito envolvendo veículos automotores chegou a R$ 66,7 bilhões em 2023.
Para a simulação, o estudo considera um custo médio de R$ 200 por inspeção e a realização de vistorias em cerca de 20 milhões de veículos por ano, o equivalente a um sexto da frota atual.
Nesse cenário, o custo anual do programa seria de aproximadamente R$ 4 bilhões para os condutores.
Ainda assim, o estudo conclui que, se a ITV conseguir reduzir ao menos 5,4% dos acidentes fatais, os benefícios econômicos já superariam os custos. Esse percentual representaria a preservação de cerca de 1.190 vidas em apenas um ano.
Impactos vão além da segurança
Além da redução de mortes, a cartilha aponta efeitos positivos em diferentes áreas. A inspeção periódica estimula a manutenção preventiva dos veículos, fortalece os setores de reparação e autopeças e contribui para a renovação da frota, retirando de circulação veículos sem condições adequadas.
Outro ponto destacado é o impacto ambiental, com a possibilidade de redução das emissões de poluentes atmosféricos.
O documento também ressalta que a ampliação da cobertura da inspeção pode ser impulsionada por campanhas de conscientização e por políticas de subsídio, com o objetivo de reduzir o custo para os proprietários de veículos.
Política pública é vista como estratégica
Nas considerações finais, a CNC enfatiza que o crescimento da frota não foi acompanhado por medidas proporcionais de segurança, o que contribuiu para o aumento das fatalidades nas últimas décadas.
Diante desse cenário, a Inspeção Técnica Veicular é apresentada como estratégia estruturante, capaz de promover um trânsito mais seguro, eficiente e sustentável.
A entidade defende que a ampliação do programa, aliada a incentivos econômicos e ações educativas, pode representar avanço significativo na redução de acidentes e na melhoria das condições de circulação no Brasil.









