Fim da escala 6X1: qualidade de vida ou prejuízo para os brasileiros? -

Fim da escala 6X1: qualidade de vida ou prejuízo para os brasileiros?

Debate Aftermarket Automotivo reúne líderes e colaboradores do setor para discutir um tema que ganha força neste ano eleitoral. Participantes se revezam entre preocupações quanto à operacionalidade dos negócios e otimismo com a melhora na qualidade de vida

Neste mês de abril, o debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou tração com a aprovação da PEC que propõe a redução da jornada de trabalho pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. Agora, a pauta espera por uma relator na comissão especial e depende do presidente da casa, Hugo Motta, para seguir tramitando.

O assunto tem mobilizado empresários e trabalhadores dos mais diversos setores, e o Aftermarket Automotivo, claro, não está à margem dessas discussões. A polêmica é imensa, até porque a proposta se tornou argumento de campanha neste ano de eleições gerais. 

Em elos como a reparação e o varejo, o debate se torna ainda mais sensível. Afinal, os segmentos de comércio e serviços tendem a ser os mais impactados pela medida, pois o funcionamento dos estabelecimentos muitas vezes de segunda a sábado está diretamente ligado ao atendimento da demanda e à dinâmica operacional do mercado.

Mas, como será que os líderes, os donos de empresa, e os funcionários enxergam essa pauta? Será que as visões são totalmente antagônicas ou existe um caminho de equilíbrio entre qualidade de vida e sustentabilidade dos negócios?

Para responder a essas perguntas, reunimos os presidentes do Sindirepa-SP e do Sincopeças Brasil, Antonio Fiola e Ranieri Leitão, além de profissionais que atuam na ponta da cadeia, para uma reflexão sobre os impactos da possível mudança na jornada de trabalho sobre o mercado de reposição independente.

O resultado dessa mesa plural você acompanha a seguir na segunda edição do Debate Aftermarket Automotivo.

QUESTÃO AA

Aftermarket Automotivo – Como equilibrar o bem-estar dos trabalhadores e a sustentabilidade do modelo de negócios das empresas do Aftermarket Automotivo nestas discussões do fim da escala 6×1?

Antonio Fiola

Presidente do Sindirepa-SP
Esse é um tema bastante complexo. A maioria das oficinas já trabalha com escala 5×2, o que vai ocorrer é a redução de horas de trabalho. A América do Sul pratica 48 horas, quem trabalha com 40 horas são os países da Europa que vivem outra realidade. Essa regulamentação de diminuição de carga horária vai afetar ainda mais a nossa competitividade com relação a outros países. Outra questão é que essa negociação sempre foi realizada  entre as partes: empregador e trabalhador, sem a imposição de uma lei, com o agravante de estarmos em ano eleitoral.  Essa situação pode aumentar o risco de trabalho informal no Brasil. 

Além disso, o setor já enfrenta hoje uma falta significativa de mão de obra. Nós não estamos tendo a renovação necessária de profissionais na escala em que o mercado demanda, o que gera um claro desequilíbrio entre a oferta de vagas e o número de trabalhadores interessados e preparados para ocupá-las.

Do lado das entidades, temos buscado mitigar esse cenário com ações estruturadas. Um exemplo importante são os cursos de capacitação em parceria com o Senai, que contribuem para formar novos profissionais e atualizar os que já estão no mercado. Além disso, mantemos bancos de vagas justamente para otimizar o encontro entre oficinas, empresas de autopeças e candidatos, tentando reduzir essa fricção no processo de contratação.

Por outro lado, não há como ignorar que o fim da escala 6×1 tende a elevar as despesas fixas das empresas. Na prática, isso significa mais contratações, mais encargos e maior peso da parte fiscal, o que impacta diretamente o custo operacional do negócio. Em um setor de margens já pressionadas, qualquer variação nesse componente pode comprometer a sustentabilidade da empresa.

Por isso, o ponto central é o reequilíbrio de custos. Será necessário repensar estrutura, processos e formação de preços para absorver esse novo modelo sem afetar drasticamente a lucratividade. O desafio é preservar o bem-estar e os direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que se garante a viabilidade econômica das empresas que sustentam toda a cadeia do aftermarket automotivo.

Ranieri Leitão

Presidente do Sincopeças Nacional

O debate sobre a jornada de trabalho é legítimo e necessário, especialmente quando olhamos para a qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, no aftermarket automotivo, precisamos considerar as particularidades do setor, que envolve atendimento contínuo, muitas vezes com demanda imediata e imprevisível.

O equilíbrio passa por um caminho responsável: não se trata apenas de reduzir jornadas, mas de repensar a organização das operações, investir em gestão, produtividade e tecnologia. Empresas mais estruturadas conseguem distribuir melhor suas equipes, criar escalas mais eficientes e preservar tanto o atendimento quanto o bem-estar do colaborador.

Além disso, é fundamental que qualquer mudança seja construída com diálogo, considerando a realidade das micro e pequenas empresas, que representam grande parte do setor. Medidas abruptas podem gerar impacto direto na operação, no custo e, consequentemente, na sustentabilidade do negócio. O desafio, portanto, está em encontrar soluções que sejam viáveis na prática, conciliando competitividade, geração de empregos e qualidade de vida.

Heber Carvalho

Presidente do Sincopeças/SP

Um caminho para mantermos o equilíbrio e o bem-estar entre empresas e colaboradores deve ser mantida por meio da CCT – Convenção Coletiva de Trabalho, haja vista que, em alguns setores, a redução da jornada é possível e em outros setores (na maioria) é inviável aplicar está norma.

QUESTÃO AA

O que você tem ouvido dos donos de empresas em relação ao tema?

Antonio Fiola – Presidente do Sindirepa-SP

Nas conversas com proprietários de oficinas e me incluo nesse rol, o que se ouve  é uma preocupação muito objetiva com o impacto direto nos negócios, principalmente entre aqueles que abrem aos sábados. Para esse perfil de empresa, a mudança de escala não é um detalhe operacional, é uma alteração estrutural na forma de atender o cliente e de organizar as equipes.

Adequar-se a essa nova regulamentação será um grande desafio. Em muitos casos, será preciso rever escalas, ampliar quadro de funcionários ou, eventualmente, repensar horários de atendimento. Tudo isso gera custo adicional em um cenário em que o consumidor é extremamente sensível a preço e prazo.

Se olharmos para o comércio de autopeças, o quadro é ainda mais crítico. O varejo de autopeças, em sua maioria, opera aos sábados com regularidade, acompanhando justamente a demanda das oficinas e dos consumidores finais. A mudança na escala tende a elevar custos de forma relevante nesse segmento e, consequentemente, afetar a competitividade e a rentabilidade dessas empresas.

É importante destacar que o aftermarket automotivo funciona em cadeia: oficinas, autopeças, distribuidores e fabricantes. Quando um elo tem aumento de custo e perda de eficiência, isso se propaga para todos os demais. O novo formato trabalhista, se não for bem calibrado, pode gerar um efeito em cascata, pressionando margens em toda a cadeia e, no fim, impactando também o consumidor.

O setor está disposto ao diálogo e comprometido com a melhoria das condições de trabalho, mas é fundamental que as mudanças considerem a realidade operacional do aftermarket para não comprometer a saúde das empresas e a continuidade do serviço prestado à sociedade. É bem provável que ocorre inflação e reajuste de preços no setor por conta dessa nova condição.  

Ranieri Leitão

Presidente do Sincopeças Nacional

O que temos ouvido dos empresários do varejo é uma preocupação muito clara com os impactos práticos dessa discussão no dia a dia das empresas.

Muitos relatam dificuldade em reorganizar suas equipes sem aumento de custo, principalmente aqueles que operam com estruturas mais enxutas. Existe também um receio de comprometer o nível de atendimento, já que o setor depende de rapidez e disponibilidade para atender o cliente no momento em que ele precisa.

Por outro lado, há uma percepção crescente de que o cuidado com o colaborador é essencial, tanto para retenção quanto para produtividade. O que o empresário busca não é resistência à mudança, mas condições viáveis para implementá-la.

O setor está aberto ao debate, mas entende que ele precisa ser conduzido com equilíbrio, gradualidade e, principalmente, com respeito à realidade de quem está na ponta da operação.

Heber Carvalho

Presidente do Sincopeças/SP

No segmento do varejo de autopeças irá causar aumento de custos para as empresas e falta de mão-de-obra imediata para sustentar está alteração.

QUESTÃO AA

O que pensam os funcionários de oficinas de reparação e balconistas de autopeças? 

Observação: Pela sensibilidade do tema e a pedido dos próprios profissionais ouvidos, optamos por preservar os nomes que contribuíram a seguir com suas reflexões. Só a preocupação dos entrevistados em expor suas visões já mostra que a discussão ampla sobre o assunto ainda parece carecer de maturidade, pois é fundamental que todas as partes sintam-se totalmente à vontade para apresentar seus pensamentos a fim de enriquecer o debate, que precisa envolver a sociedade como um todo.

Profissional 1

Posso dizer que a escala 6×1 ainda faz parte da realidade da maioria das empresas do nosso setor. Isso acontece principalmente porque o sábado é um dia muito importante em volume de vendas e atendimento, então abrir mão desse dia ou reduzir a equipe impacta diretamente no faturamento. Sobre o possível fim da escala 6×1, vejo como um avanço do ponto de vista da qualidade de vida do trabalhador, já que uma jornada menos desgastante tende a melhorar o bem-estar e até a produtividade. Por outro lado, na prática, existe uma preocupação real das empresas com o aumento de custos operacionais, já que seria necessário contratar mais funcionários ou reorganizar toda a escala para manter o mesmo nível de atendimento. A rotina é intensa, exige agilidade e conhecimento técnico, então qualquer mudança precisa ser muito bem planejada para não sobrecarregar a equipe que permanece e nem comprometer o atendimento ao cliente. Acredito que o caminho ideal seja uma transição gradual, com adaptação por setor, levando em consideração a realidade do varejo automotivo. Assim, é possível buscar um equilíbrio entre qualidade de vida para o trabalhador e sustentabilidade para as empresas.

Profissional 2

Hoje eu atuo no varejo automotivo de segunda a sexta, então não estou diretamente na escala 6×1. Mas, por estar no dia a dia do balcão e em contato com muitos profissionais do setor, consigo observar bem os impactos dessa rotina. O que vejo é que a escala 6×1 pode gerar um desgaste grande ao longo do tempo, principalmente em um ambiente que exige agilidade, atenção e relacionamento constante com o cliente. Por outro lado, também entendo que o varejo depende muito de disponibilidade e presença. Acredito que o desafio está no equilíbrio: encontrar um modelo que mantenha a produtividade sem comprometer a qualidade de vida, porque, no fim, um profissional cansado também impacta o resultado.

Profissional 3

Vejo o possível fim da escala 6×1 como um avanço, desde que venha com uma remuneração compatível. No automotivo, existe uma particularidade: muitas oficinas funcionam aos sábados, o que torna o dia uma oportunidade importante também de vendas no balcão. Também acredito que o profissional precisa buscar qualificação. Quanto mais preparado e estratégico ele for, mais valor entrega — e isso fortalece sua posição para exigir melhores condições e remuneração.

Com organização e valorização, é possível equilibrar resultado e qualidade de vida.

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