Fraudes na loja física geram prejuízo anual de R$ 35 bilhões para o setor de varejo -

Fraudes na loja física geram prejuízo anual de R$ 35 bilhões para o setor de varejo

Fatores como facilidade de revenda de produtos furtados e valor agregado da mercadoria fazem com que segmento de autopeças figure entre os mais expostos à criminalidade

Nos últimos anos, o debate sobre a segurança no varejo passou a ter uma concentração significativa sobre os riscos relacionados ao ambiente digital. Abordar esse ângulo faz sentido. Afinal, as perdas provenientes de fraudes no e-commerce – como chargebacks indevidos, uso de cartões clonados e golpes com identidade falsa – geram prejuízos anuais bilionários ao varejo nacional e exigem investimentos crescentes em tecnologia antifraude.

Isso não significa, no entanto, que a segurança do varejo físico possa ser negligenciada. Dados da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe) indicam que o índice médio de perdas do setor de varejo brasileiro gira em torno de 1,4% a 1,6% do faturamento líquido, o que representa cerca de R$ 35 bilhões por ano em furtos, fraudes internas, erros operacionais e quebras de estoque.

Em um cenário de margens pressionadas, esse percentual aparentemente pequeno pode representar a diferença entre lucro e prejuízo para muitas empresas, especialmente no caso de lojas que trabalham com itens de maior valor agregado, como é o caso de diversas operações no varejo de autopeças.

Para Lucas Mendes, Gerente nacional de vendas da Genetec, empresa especializada em soluções de segurança unificada, o erro começa justamente na separação entre o mundo físico e o digital.

“Hoje, não faz mais sentido tratar segurança física e digital de forma separada. Uma loja moderna precisa de uma plataforma capaz de unificar, em uma única interface, diferentes sensores e sistemas, como câmeras de vídeo, controle de acesso e outros dispositivos. Isso permite uma visão centralizada da operação e reduz pontos cegos”, afirma o especialista.

Embora alguns segmentos, como mercados de conveniência e supermercados tradicionais, apresentem índices de perdas superiores à média, os dados da Abrappe mostram que a necessidade de prevenção está pulverizada por todo o setor. Isso porque, o gap do índice de perdas médias desses segmentos em relação àqueles que estão abaixo da média geral do setor não ultrapassa a casa dos 2%. 

Segundo Mendes, isso acontece porque, além de componentes clássicos como o volume de circulação de pessoas e a quantidade de pontos de acesso aos produtos, questões como a facilidade de revenda de produtos furtados e o valor agregado dessa mercadoria também representam elementos importantes na equação que define o ‘nível de atratividade’ de um segmento para potenciais fraudadores.

“O importante é entender o nível de exposição e desenhar a estratégia de acordo com esse perfil”, recomenda.

Demanda do mercado informal aumenta exposição das lojas de autopeças

A capacidade de escoamento de peças no mercado informal é justamente onde mora uma das maiores vulnerabilidades do varejo de autopeças. Diferentemente de outros segmentos, muitos itens comercializados por esse setor são compactos, possuem alto valor unitário e apresentam liquidez imediata, o que facilita tanto a revenda informal quanto a inserção em cadeias ilegais.

De acordo com a Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), o setor automotivo figura entre os mais afetados pelo mercado ilegal no país. Segundo a entidade, parte importante do comércio de autopeças no Brasil é abastecida por produtos vendidos por meio de práticas ilícitas, o que representa um prejuízo estimado na casa de R$ 12 bilhões ao ano, considerando o faturamento total do setor.

É importante destacar que, no anuário divulgado pela ABCF, o impacto não contempla apenas peças estritamente falsificadas. O levantamento inclui também mercadorias que chegam ao consumidor final por meio de expedientes como sonegação fiscal, descaminho e contrabando. Ou seja, trata-se de um problema que vai além da pirataria tradicional e que se relaciona diretamente com a ocorrência de itens desviados das lojas formais. 

Para Lucas Mendes, da Genetec, há características próprias desse tipo de operação que ampliam a exposição ao risco. Ele observa que negócios que trabalham com itens técnicos e de maior valor agregado tendem a apresentar vulnerabilidades específicas. Peças menores, ferramentas especializadas e áreas de estoque com grande densidade de produtos exigem atenção adicional, sobretudo quando há múltiplos acessos ou circulação intensa de pessoas.

Além disso, depósitos, estoques externos e áreas de recebimento e expedição podem se tornar pontos sensíveis se não houver controle adequado. A vulnerabilidade, nesse caso, não está apenas na área de vendas, mas em toda a cadeia física da loja, do recebimento ao armazenamento e à retirada do produto.

Outro fator que pesa na sensibilidade do tema da segurança é a localização da loja física, já que a exposição ao risco pode variar significativamente conforme a cidade, o bairro e até o entorno imediato do ponto comercial.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que crimes patrimoniais como furtos e roubos apresentam variações expressivas entre estados e regiões metropolitanas. Em alguns estados, as taxas de roubo por 100 mil habitantes são mais do que o dobro das registradas em outras unidades da federação. Além disso, grandes centros urbanos concentram maior volume absoluto de ocorrências, enquanto cidades médias podem apresentar dinâmicas distintas, muitas vezes com menor estrutura de vigilância pública.

Essa heterogeneidade se reflete diretamente no varejo físico. Experiências práticas da Genetec apontam que, mesmo dentro da mesma cidade, bairros podem apresentar perfis de risco bastante distintos, exigindo abordagens específicas para cada operação.

Em grandes centros, é comum observar ações mais rápidas e coordenadas. Em outras regiões, vulnerabilidades operacionais ou perdas internas podem ser mais representativas. Esses padrões influenciam diretamente as recomendações. Cada projeto precisa considerar contexto local, perfil de produto, fluxo de pessoas e histórico de ocorrências. Não existe solução única para todos os cenários”, afirma Lucas Mendes.

No caso do varejo de autopeças, essa variável geográfica ganha ainda mais peso quando se considera que muitas lojas operam em regiões industriais, áreas com grande circulação de oficinas ou polos automotivos, locais que podem concentrar tanto demanda legítima quanto movimentação paralela de peças. A proximidade com rodovias, centros logísticos ou regiões de alto fluxo também pode influenciar o nível de exposição.

Além disso, análises da Abrappe indicam que parte relevante das perdas no varejo brasileiro está associada a furtos externos e internos, o que reforça que o risco não está apenas na criminalidade urbana em si, mas também na dinâmica operacional da loja. Em regiões com maior rotatividade de funcionários ou alto fluxo de clientes, por exemplo, os controles precisam ser ainda mais estruturados.

Mitigação de riscos demanda infraestrutura complexa

Se o cenário de risco se tornou mais dinâmico e sofisticado, a resposta do varejo físico também precisa evoluir. Mitigar vulnerabilidades hoje não significa apenas instalar câmeras ou reforçar portas, mas estabelecer uma infraestrutura capaz de integrar tecnologia, processos e gestão.

Segundo a Genetec, mesmo em cenários de orçamento restrito, algumas bases são consideradas fundamentais para reduzir exposição a perdas e incidentes:

  • Monitoramento por vídeo estrategicamente posicionado, priorizando pontos críticos como área de caixa, estoque, recebimento de mercadorias e acessos externos;
  • Controle de acesso a áreas sensíveis, especialmente estoques e depósitos;
  • Iluminação adequada e layout organizado, reduzindo pontos cegos e facilitando a visibilidade da operação;
  • Processos internos claros e padronizados, com definição de responsabilidades e protocolos para situações de risco.

Mais do que o volume de equipamentos instalados, o diferencial está no planejamento. Segurança eficaz começa pelo entendimento do fluxo da operação e pela identificação dos principais pontos de vulnerabilidade.

Na prática, empresas que adotam plataformas integradas de segurança tendem a observar benefícios mensuráveis. Entre eles estão a redução de perdas recorrentes, maior agilidade na apuração de incidentes, melhor controle sobre áreas críticas e padronização de procedimentos entre diferentes unidades.

Além da diminuição de prejuízos diretos, há ganhos indiretos relevantes: maior visibilidade operacional, decisões mais rápidas e menos reativas, além de melhoria na governança interna. 

“Quando o gestor passa a ter visão centralizada da loja – integrando câmeras, controle de acesso e outros dispositivos – a segurança deixa de ser apenas proteção patrimonial e passa a funcionar como ferramenta de gestão”, destaca Lucas Mendes.

Outro ponto destacado pela empresa é que o investimento em segurança não segue uma fórmula única. Ele varia conforme o porte da operação, número de unidades e nível de maturidade tecnológica do negócio. Há varejistas que precisam resolver uma demanda imediata, enquanto outros estruturam planos de expansão ou padronização entre filiais.

Nesse contexto, soluções escaláveis ganham relevância. Plataformas que permitem iniciar com estrutura mais enxuta e evoluir ao longo do tempo, seja em modelos físicos, em nuvem ou híbridos, tornam a mitigação de riscos mais acessível a diferentes perfis de negócio.

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