Muito além de uma campanha simbólica, o Janeiro Branco se consolida como um movimento de conscientização sobre saúde emocional, bem-estar humano e responsabilidade das organizações. Em um cenário em que o adoecimento psíquico cresce de forma silenciosa no ambiente de trabalho, o início do ano passa a ser também um convite para que empresas reflitam sobre a saúde emocional de quem sustenta seus resultados.
O alerta é global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente com algum transtorno de saúde mental, sendo a ansiedade e a depressão as condições mais prevalentes. O impacto vai além da esfera individual: o custo indireto desses transtornos para a economia global é estimado em cerca de US$ 1 trilhão por ano, em razão de perda de produtividade, afastamentos e redução da capacidade laboral.
No Brasil, o cenário é igualmente preocupante. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que, em 2024, foram concedidas 472 mil licenças por afastamento relacionado à saúde mental, um crescimento de 68% em relação a 2023. Já informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) indicam que, em 2025, houve um aumento de 143% nos afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Entre as doenças que mais geraram benefícios por incapacidade temporária, depressão e ansiedade lideram, somando quase meio milhão de casos, o maior número registrado em pelo menos uma década.
“A saúde mental deixou de ser um tema de conscientização, uma pauta de sensibilização e passou a ser um elemento estruturante da gestão. Empresas que ignoram os riscos psicossociais estão, hoje, assumindo riscos humanos, legais e financeiros ao mesmo tempo”, afirma Vanessa Martins, Psicoterapeuta Comportamental, Chief Happiness Officer e proprietária do Instituto de Desenvolvimento Humano Lab de Ocitocina, instituição já autorizada para o credenciamento de empresas em conformidade com a NR-1.
No dia a dia das empresas, esse cenário se manifesta por meio de lideranças exaustas, equipes que operam no automático, conflitos não verbalizados e uma falsa sensação de normalidade.
“Quando o ambiente emocional adoece, o que vemos são lideranças esgotadas, equipes desengajadas e relações fragilizadas, mesmo quando os números parecem, por um tempo, positivos”, complementa Martins.
Obrigatoriedade da NR-1
Esse debate ganha agora um novo patamar com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece a obrigatoriedade da gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A saúde mental deixa de ser apenas uma pauta de boas intenções e passa a integrar formalmente as responsabilidades legais das empresas. A norma não se limita à exigência de documentos, mas demanda consciência organizacional, cultura de cuidado e práticas efetivas de proteção à saúde emocional dos trabalhadores.
Para a especialista, a mudança é profunda e exige maturidade das organizações: “A NR-1 não é sobre papel, é sobre consciência, cultura e práticas reais de cuidado. Não existe gestão eficiente sem gestão emocional”, ressalta Martins.
De acordo com profissionais da área de bem-estar corporativo, empresas que se antecipam a esse movimento não o fazem por receio de sanções legais, mas por compreenderem que ambientes emocionalmente saudáveis reduzem rotatividade, aumentam engajamento e sustentam resultados no longo prazo.
O Janeiro Branco, nesse contexto, amplia seu papel: não se trata de falar apenas sobre sofrimento, mas de promover culturas corporativas mais humanas, produtivas e sustentáveis. Cuidar da saúde emocional, além de um dever legal, passa a ser um investimento direto em pessoas, cultura organizacional e no futuro das empresas.
Com a saúde mental agora reconhecida também como responsabilidade prevista em lei, o movimento convida lideranças e organizações a uma reflexão: que tipo de ambiente emocional está sendo construído dentro das empresas?











