O varejo vive uma crise sistêmica? -

O varejo vive uma crise sistêmica?

Em entrevista exclusiva, o especialista em recuperação empresarial – Felipe Granito, ofereceu uma visão ampla do atual cenário do varejo

Lucas Torres

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Nas últimas semanas, alguns dos principais players do varejo brasileiro tiveram suas crises financeiras noticiadas pela grande imprensa.

Casos como o da Americanas, da Marisa e da Livraria Cultura ligaram o sinal de alerta do mercado financeiro sobre uma possível crise sistêmica no setor varejista e já começam a endurecer as condições dos bancos na concessão de empréstimos para as empresas.

Percebendo o cenário, o Governo Federal sinalizou para o mercado alternativas de financiamento e subsídios vindos do Banco Central como incentivo para facilitar o acesso do varejo ao crédito.

Para oferecer aos nossos leitores uma fotografia ampla da relação entre endividamento das varejistas e restrição ao crédito, conversamos com Felipe Granito, advogado do escritório GBA Advogados Associados e especialista em temas como recuperação empresarial e renegociação de dívidas.

Confira abaixo a íntegra da conversa:

NovoVarejo – Diante dos dados de endividamento, é possível afirmar que o varejo tem enfrentado uma crise sistêmica?

Felipe Granito – Considerando o aumento da demanda de recuperação empresarial de empresas do varejo, é possível identificar que existe uma crise sistêmica se aproximando. Isso se dá, provavelmente, por duas razões:

  1. A instabilidade política que ainda circunda o Brasil, adiando investimentos externos a internos na economia;
  2. O aumento expressivo das taxas de juros no último na, uma vez que a maioria dos contratos de empréstimos, seja para aquisição de bens móveis e imóveis, empréstimos realizados durante a pandemia pelo setor que foi extremamente afetado e renegociações de dívidas antigas, todos eles lastreados – em sua maioria – na taxa de juros do mercado. O aumento da taxa, ocasionou como consequência o aumento do valor das parcelas. O controle da inflação gera exatamente essa diminuição no consumo e consequentemente trás os efeitos dessa provável crise.

NovoVarejo – Quais são os portes das empresas varejistas com maior problema no âmbito do endividamento? As gigantes, as grandes, as médias ou as pequenas/micro?

Felipe Granito – Pela percepção de mercado do GBA, notamos um aumento de pequenas e médias empresas no varejo procurando o processo do turnaround, ou recuperação empresarial. O mercado apresentou, em compensação, que várias empresas de grande porte também estão se socorrendo do judiciário, no caso delas para pedidos de recuperação judicial.

Mas uma coisa é certa, sempre que as grandes operações apresentam os sintomas da crise financeira no setor, provavelmente as pequenas e médias já vem suportando essas mesmas consequências há muito tempo.

Felipe Granito é advogado especialista em recuperação empresarial e renegociação de dívidas.

NovoVarejo – O atual cenário de endividamento das varejistas têm tornado a concessão de crédito cada vez mais restrita por parte dos bancos? Como a alta dos juros potencializa este cenário?

Felipe Granito – Não apenas os bancos de primeira linha, como Caixa, Itaú, Bradesco etc, mas também as instituições financeiras menores, os fundos (FIDC), securitizadoras e demais operadores de crédito, estão aumentando suas taxas e diminuindo sua exposição. É perceptível que acessar um crédito de antecipação de recebíveis, ou um fomento direto está muito mais difícil e custoso nos últimos meses. O mesmo “stop” que os operadores deram no início da pandemia está sendo percebido novamente, desde o final do ano passado.

NovoVarejo – Como oferecer garantias para as instituições financeiras na hora de reestruturar uma dívida e se tornar apto a conseguir negociações vantajosas em caso de necessidade de crédito?

Felipe Granito – Oferecer garantias nunca é uma boa opção. Conceder, por exemplo, um imóvel bem de família, por exemplo, para diminuir o custo de uma dívida cara é uma das piores alternativas que o empresário pode adotar. Isso porque a crise financeira que está afetando a operação dele muitas vezes não corresponde apenas a uma falta de caixa. Pode ser um problema estrutural, gerencial ou inclusive de mercado, como percebemos no momento. Portanto, colocar um bem que em regra poderia estar protegido dos efeitos da crise para garantir dívidas que podem apenas aumentar, normalmente é muito arriscado.

Do mesmo modo, oferecer bens pessoais para garantir empréstimos para investimentos, ainda assim precisa ser muito bem avaliado. O empresário precisa ter ciência de que, caso aquele investimento (normalmente de risco, considerando todos os fatores externos de um negócio no Brasil) não traga os resultados esperados, que ele possua saldo suficiente para quitar aquela dívida e não comprometer o patrimônio de sua família.


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