Para coordenador da FGV IBRE, fim da pandemia não garante desaceleração do movimento inflacionário -

Para coordenador da FGV IBRE, fim da pandemia não garante desaceleração do movimento inflacionário

André Braz destaca singularidade da inflação brasileira – que mantém trajetória de alta, mesmo com elevado índice de desemprego

Lucas Torres jornalismo@novomeio.com.br

Quem viveu no Brasil entre os anos 1980 e 1990 conhece os efeitos devastadores de uma inflação descontrolada para a saúde da economia e o bem-estar da população. Não por acaso, a temática foi àquela época simbolizada pela alegoria de um dragão. Quase 30 anos depois do Plano Real, que finalmente abateu nossa criatura mitológica, o temido aumento descontrolado dos preços volta a assombrar as pessoas físicas e jurídicas que vivem ou atuam por aqui, pintando um quadro de incertezas que deve perdurar até mesmo com a chegada do ainda longínquo ‘pós-pandemia’. A fim de discutir as causas do atual cenário e, sobretudo, as alternativas e perspectivas para o controle da inflação, nossa reportagem entrevistou com exclusividade o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do FGV IBRE – Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas –, André Braz. Durante a conversa, o mestre em economia destacou que o atual cenário é especialmente desafiador por unir uma situação conjuntural provocada pela economia com diversos gargalos estruturais existentes há anos no país – o que coloca o Ministério da Economia diante de um leque de possíveis soluções que se assemelham a um cobertor curto em que há de se fazer a opção entre adotar medidas em prol do controle do movimento inflacionário ou manter um nível razoável de estímulo à atividade econômica.

Novo Varejo – Entre as 20 maiores economias do mundo, o Brasil foi o país que registrou a maior elevação inflacionária em pontos percentuais no último ano. A que se deve este cenário?

André Braz – De fato a gente teve uma aceleração muito forte no ano passado. Boa parte deste cenário foi impulsionada pela alta do preço dos alimentos e algumas questões contribuíram para isso, então acabou sendo uma tempestade perfeita. A primeira foi a mudança de hábito e o temor por conta da pandemia. Isso fez com que as famílias fizessem uma corrida para os supermercados para preparar todas as refeições em suas residências. Como foi um efeito macro, todos tiveram que ficar em casa, o reforço na despensa do lar foi primordial. E essa busca de todas as famílias, dada a lei da oferta e da procura, provocou o aumento de preço. Tanto é que a gente olha os resultados da inflação de março de 2020 e percebe o quanto o preço da alimentação avançou dentro do próprio mês. Depois teve a desvalorização cambial mais forte. A incerteza no Brasil demorou bastante, a incerteza associada ao déficit público – já que a pandemia fez com que o Governo gastasse mais em ações assistenciais, vacinas, recursos hospitalares – e a condição fiscal no Brasil já era muito delicada. A necessidade de aumento dessa despesa colocou um risco ainda maior nas contas públicas e isso contribuiu para a desvalorização cambial. Existe ainda um terceiro fator que esteve relacionado ao aumento do preço das commodities. Muitas commodities que acabam se transformando em alimentos que a gente leva pra casa – como a soja, o trigo e o milho – todos estes grãos importantes ficaram mais caros e em dólar. Quando a gente junta todos estes fatores, acrescentando aqui a quebra de safras como a do arroz e do feijão, é a tempestade perfeita. Isso puxou muito a inflação. A inflação sobre a alimentação no ano passado chegou a acumular alta de 20%. Isso mostra o quanto os preços influenciaram a inflação. Tanto é que 60% da inflação acumulada no ano passado foi em função do aumento do preço dos alimentos.

NV – Como o maior comprometimento da renda com as necessidades do dia a dia impactou o setor de bens duráveis, como o automotivo?

AB – A gente imaginava que a situação em 2021 fosse gradualmente nos favorecendo, mas as incertezas continuaram e tornaram o movimento inflacionário mais generalizado. Se a questão antes estava concentrada mais no campo dos alimentos, a partir do início deste ano começou a aparecer em transportes – com vários aumentos expressivos nos combustíveis, com a gasolina subindo mais de 30% nos últimos 12 meses. Diesel e etanol em movimentos parecidos. E a gente sabe o quanto isso impacta o custo de vida. Houve também aumento de energia, com previsão para novos aumentos no mês de julho – devido à crise hídrica. Essa classe de energéticos avançou muito nos últimos 12 meses e isso vem ocupando mais espaço no cenário de inflação, o que mostra que essa inflação vai ficando mais democrática. Se antes ela afetava mais o custo de vida de famílias pobres, agora reúne também outras famílias mais ricas, que têm suas cestas de consumo mais diversificadas. É uma inflação que está atingindo a todos os brasileiros. Isso, com certeza, interfere nos bens duráveis. Sobretudo porque máquina de lavar, fogão, geladeira e automóveis estão também apresentando alta de preços. Quanto a eles, a questão não está relacionada a uma demanda alta. Aqui, a gente vê um aumento de custo de insumos como minério de ferro, cobre, alumínio, aço. Mesmo caso da parte química, como a fabricação de plásticos, a celulose, isso subiu muito de preço e desafia vários segmentos industriais. Então estes bens também estão subindo de preço. Isso gera um cenário complexo e bastante problemático. Porque costumamos ver em tempos de crise, de desemprego alto, uma queda dos preços. Agora vemos um cenário incomum com desemprego alto e inflação alta – com esta última se sustentando não por demanda, mas sim por custo.

NV – Como essa situação quase paradoxal coloca em dúvidas a capacidade de o Brasil controlar a inflação mesmo diante de uma possível recuperação econômica esperada para este segundo semestre?

AB – A expectativa é que a recuperação estimada da nossa economia desse ano promova um aquecimento no mercado de trabalho e o consequente aquecimento da demanda. Neste cenário – como vários segmentos industriais represaram repasses, diminuindo suas margens – pode ser criado um contexto capaz de fazer com que haja um movimento de recomposição de margem, o que viria a desafiar ainda mais a inflação. Então, respondendo à sua pergunta, mesmo havendo uma melhora do cenário neste segundo semestre, a estabilidade de preços pode ser desafiada pelo aumento da demanda.

NV – Já é possível observar o aumento dos juros para tentar brecar a inflação. Existe a expectativa de que a Selic, que iniciou o ano em 2%, chegue à casa dos 6% ao final de 2021. Você acredita que esse movimento representa uma ação, de fato, efetiva para conter o avanço dos preços?

AB – Como você observou, a autoridade monetária passou a revisar a taxa de juros – que já está em 4,25%. Além disso, reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária) sugerem a continuidade do aumento da taxa básica de juros que pode encerrar o ano em torno de 6,5%. Esse aumento de juros visa frear a inflação para 2022 e também favorecer a valorização da nossa moeda. À medida que o juro doméstico sobe, ele começa a atrair capital. Essa atração valoriza o real e a gente percebe que o movimento já começou a acontecer. Quando olhamos a taxa de câmbio, ela vem valorizando. Nesse contexto, os produtos importados tendem a ficar mais baratos e isso vai ajudar a controlar a inflação. O que eu espero para os próximos meses é que o país enfrente uma queda de braços, com a aceleração da demanda – com a possibilidade de repasses represados – e, em contra partida, insumos mais baratos. A torcida é que a valorização do real venha a mitigar esse processo inflacionário mais forte que a gente ainda tem a enfrentar à medida que a economia se recupere.

NV – Embora o Brasil tenha liderado o ranking de crescimento inflacionário no período, o país esteve longe de ser o único a apresentar o movimento – 16 das 20 maiores economias do planeta também apresentaram alta inflacionária. O que ocasionou este ambiente? Qual foi o papel da pandemia?

AB – Essa questão tem a ver com o preço das grandes commodities. Milho, soja, trigo, minério de ferro, alumínio ou cobre são grandes commodities cujos preços são colocados no mercado internacional. Então, se elas sobem em dólar, a gente consegue ver em gráficos que o mundo todo pagou mais caro por elas. China, Estados Unidos e outras nações. Não só a inflação ao consumidor, mas ao produtor também. Ficou mais caro para a indústria desses países produzir itens a partir destes metais, bem como ficou mais caro para a indústria produzir alimentos. Na nossa indústria repercutiu de maneira mais forte, porque, além do aumento do preço em dólar, enfrentamos uma desvalorização cambial expressiva. Somados os dois efeitos, o impacto foi muito maior. Se o real não tivesse perdido tanto valor, teríamos enfrentado uma inflação alta, porém mais compatível com a que outros países perceberam.

NV – Em dado momento da pandemia, o país sofreu com uma crise de abastecimento de determinadas commodities e itens industriais. Em meados de 2020, o aço era um dos protagonistas deste cenário. De acordo com dados da CNI, no entanto, esta crise de abastecimento teve um arrefecimento já a partir do segundo semestre do ano passado. Por qual razão matérias-primas como o aço mantiveram a tendência de alta mostrada nos tempos de escassez?

AB – Grandes economias como a China e os Estados Unidos têm política fiscal expansionista. Os governos estão investindo na atividade econômica para que ela se recupere mais rapidamente. Quando isso acontece, a busca por insumos aumenta. Porque esses países têm uma demanda aquecendo, sustentada por incentivos. A China, principalmente, é uma grande compradora do Brasil. Como a gente segue com a moeda muito desvalorizada, compensa para quem produz matéria-prima no Brasil exportar. Essa exportação ajuda a recompor margem pela indústria, mas cria um problema, que é o desabastecimento do mercado brasileiro, porque ela retira o incentivo de manter matéria-prima aqui e isso provoca o aumen oneraram sua estrutura produtiva, mas ele também desafia mais a indústria doméstica que depende dessa matéria-prima. Entretanto, já temos notícias do Banco Central que a economia do país aqueceu e provavelmente eles vão começar diminuir os incentivos, podendo até subir juros. Ocorrendo isso, a tendência é que diminua a demanda por essas matérias primas e o apetite deles por commodities, estabilizando os preços desses produtos. Com a nossa moeda valorizando também começaremos a ficar mais competitivos, já que uma parte do aumento dessas exportações se deve à queda do real, que nos colocou como uma grande vitrine. O mercado externo pensou: “compra do Brasil, porque cada vez que a gente vai naquele país com 100 dólares, a gente leva mais coisas”. Então, a valorização da moeda também pode regular a oferta e o preço destes produtos domésticos.

NV – Qual é sua avaliação do trabalho do Ministério da Economia e que providências é possível vislumbrar sendo desenhadas pelo ministro Paulo Guedes e sua equipe para que o velho dragão inflacionário não volte a aterrorizar os brasileiros como no passado?

AB – O Brasil já vinha muito frágil antes da pandemia. Qual é a política que falta para aquecer a nossa atividade? A política fiscal. Quando o governo investe na atividade econômica, construindo rodovias, hidrelétricas, revitalizando portos, ele está investindo em questões estratégicas e convida o setor privado para esses empreendimentos. Quando esse dinheiro circula, ele aquece a atividade econômica. Isso faz com que outros players empreguem mais pessoas, paguem salários, gerando crescimento econômico, distribuição de renda e queda na desigualdade. Esse círculo depende do setor público atrair o setor privado, algo que – pela falta de dinheiro e o grande endividamento público – está muito dificultado. Então o que a autoridade monetária fez? Ela diz: “eu não tenho a política fiscal, vou utilizar a questão monetária para tentar aquecer a atividade econômica reduzindo juros”. É por isso que no início de 2021 o juro estava a 2% ao ano. Porque era o único elemento que tínhamos para tentar aquecer a atividade. O problema é que à medida que a inflação começou a ficar mais espalhada pelos segmentos, acendeu-se a luz amarela. Então o BC pensou: “vamos começar a mexer nos juros, senão não vamos conseguir segurar a inflação”. A partir desse reconhecimento, nossa política monetária passou a ter como prioridade o controle dos preços, do mal maior que é o avanço da inflação. O problema é que essa revisão na taxa básica de juros se coloca como mais um desafio para a retomada da atividade econômica. Mas é a situação em que estamos e o melhor que podemos fazer neste momento é controlar o mal maior. Por isso é importante ter as contas públicas saudáveis. Para que se possa ter opções diversificadas para incentivar a economia e, ao mesmo tempo, controlar a inflação. Já estamos nessa posição reativa há alguns anos e vários governos. to de preços. Então, o setor produtivo se recupera – em partes, porque ele tem investimentos em dólar que


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