Sozinha, Inteligência Artificial é incapaz de gerar vantagens competitivas para o varejo -

Sozinha, Inteligência Artificial é incapaz de gerar vantagens competitivas para o varejo

Executiva da WGSN afirma que amadurecimento da tecnologia tem provocado um retorno do ser humano ao centro da estratégia no setor

Como garantir que os investimentos em Inteligência Artificial (IA) no varejo gerem um diferencial competitivo na prática? Há diversas formas de responder a essa pergunta, mas, do ponto de vista da comunicação e da experiência do consumidor, todas convergem para um mesmo princípio: a tecnologia precisa atuar como complemento, e não como núcleo, da interface entre empresas e clientes.

Durante a NRF 2026 Retail’s Big Show 2026 – um dos maiores eventos de varejo do mundo, realizado entre 11 e 13 de janeiro em Nova York – Cassandra Napoli, chefe global de marketing, eventos e previsão cultural da WGSN, uma das principais autoridades globais no âmbito da análise de consumo, foi provocada a refletir justamente sobre esse equilíbrio.

A executiva, que atua há mais de uma década na análise de comportamento do consumidor e tendências culturais, destacou que o verdadeiro desafio das marcas não está em capturar atenção, mas em conquistar consideração em um ambiente cada vez mais saturado de estímulos.

Segundo ela, isso exige repensar a forma como o varejo se comunica, investe e projeta suas experiências. Em vez de acelerar indiscriminadamente o uso da tecnologia, o momento pede simplificação, sensorialidade e uma presença mais humana, especialmente no ambiente físico, que volta a ganhar relevância como espaço de conexão, comunidade e escapismo.

“A atenção é a principal moeda atualmente. Mas, na WGSN, estamos dizendo que a atenção não é mais o fator mais importante. Hoje, o que importa é a consideração. Você pode capturar atenção com movimentos chamativos, mas capturar consideração é o verdadeiro diferencial”.

Para o varejo, essa leitura se traduz em empoderar vendedores e equipes com tecnologia capaz de aumentar produtividade e tomada de decisão, sem substituir o contato humano. Além disso, reforça a necessidade de alinhar IA, dados e criatividade a propostas de valor claras e percebidas como coerentes pelo consumidor.

Confira a seguir a íntegra da entrevista concedida por Cassandra Napoli realizada durante a maior feira de varejo do mundo.

Novo Varejo – Como um varejista pode gerar tráfego mais rentável sem aumentar o investimento em marketing?

Cassandra Napoli – Acho que a atenção é a principal moeda atualmente, certo? Na WGSN, estamos dizendo que a atenção não é mais o fator mais importante. Hoje, o que importa é a consideração. Você pode capturar atenção com movimentos chamativos, mas capturar consideração é o verdadeiro diferencial. Os varejistas precisam refletir sobre o que isso significa para seus negócios. Pode significar desacelerar e simplificar. Essa é uma grande tendência no momento.

Novo Varejo – Isso tem a ver com uma mudança de comportamento do consumidor nos últimos anos?

Cassandra Napoli – Se você amplia o olhar, vê muitos consumidores buscando desacelerar, descansar, se recarregar. Eles não querem estar online; há um movimento forte de voltar ao offline. Então, como repensar os modos tradicionais de comunicação em um cenário onde as pessoas estão se desconectando? Cada vez mais, isso pode significar tornar a loja uma experiência sensorial mais prazerosa, explorando sabores, cheiros e estímulos do tipo. Voltar ao básico é, acredito, a melhor forma de capturar consideração em uma economia complexa e caótica.

Novo Varejo – Em relação ao seu trabalho com dados, como você está usando IA para acompanhar essas informações e orientar sua empresa sobre como usá-los de forma estratégica?

Cassandra Napoli – É uma pergunta multifacetada. Internamente, usamos dados e IA, cada vez mais, sob a perspectiva de forecasting. Lançamos algo chamado Pulse, que permite aos clientes navegar por nossos enormes volumes de tendências acumuladas ao longo de 28 anos. Esse é o uso interno. Mas, do ponto de vista das tendências e de como os varejistas podem integrar IA aos sistemas, falamos muito sobre a “harmonia da convergência”. A IA não é uma ferramenta de substituição; ela é complementar. Ela potencializa a criatividade. Não acreditamos que viveremos em um mundo sem produção criativa humana. A IA não é inteligente o suficiente para substituir humanos — basta ver a quantidade de conteúdo medíocre gerado por IA na internet. Mas ela pode escalar eficiência, terceirizar tarefas operacionais que ninguém quer fazer em marketing e varejo, e atuar como um “atalho” para atendimento ao cliente. A IA agentiva parece muito promissora. Há também discussões sobre GEO, ou seja, a substituição do SEO por otimização generativa. Como sua marca aparece em ambientes de busca mediados por IA? Isso exigirá que varejistas e marcas reprogramem a forma como pensam e produzem conteúdo, rompendo com métricas que os guiaram nos últimos 10 anos.

Novo Varejo – Onde os varejistas estão deixando dinheiro na mesa e como corrigir isso rapidamente?

Cassandra Napoli – Voltando à experiência offline. Em meio ao hype da IA, há uma oportunidade de resgatar modelos tradicionais que funcionavam. A loja como espaço de alegria, nostalgia e escapismo é crucial. Dados indicam que 2027 será o ano do brincar. Isso envolve humor irreverente, experiências lúdicas, oficinas DIY, espaços sensoriais. As vendas de brinquedos estão crescendo, impulsionadas por Gen X e millennials em busca de nostalgia. Existe uma “fome sensorial”: as pessoas querem tocar, sentir, se conectar. Vivemos também uma epidemia de solidão. Transformar a loja em um espaço de comunidade e escapismo é onde está a conversão.

Novo Varejo – E quanto ao equilíbrio entre lojas físicas e online?

Cassandra Napoli – Chamamos isso de “tensão de tendências”: duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. O online cresce, marketplaces prosperam, TikTok Shop está forte. Mas o espaço físico é essencial. As pessoas querem tactilidade. O humano está se tornando o novo luxo. Falar com bots de atendimento é frustrante. A IA é necessária para eficiência, mas não substitui o humano. O futuro está na convergência entre IA e inteligência humana – exatamente como a WGSN opera, com 250 analistas em 15 mercados combinando análise humana e ferramentas de IA.

Novo Varejo – Quais estratégias práticas permitem competir com grandes varejistas sem grandes projetos?

Cassandra Napoli – O hiperlocal vai prosperar. Mensagens massivas não funcionam mais. É preciso adaptar experiências aos mercados locais e a interesses de nicho. Não existe mais monocultura. Há múltiplas versões do que é “cool”. Marcas que entendem nichos específicos e se comunicam com autenticidade se destacam. Nicho é o novo normal.

Novo Varejo – E sobre mercado de usados?

Cassandra Napoli – Vai continuar crescendo e deve superar fast fashion até 2027. Há uma tensão entre valores ambientais e restrições financeiras. Vivemos uma era de policrise. Jovens escolhem batalhas. Recommerce cresce, mas exige transparência. Promessas vazias não são perdoadas, especialmente pela Gen Z.

Novo Varejo – Quais riscos os líderes não estão preparados para enfrentar?

Cassandra Napoli – Clima, continuidade operacional, tarifas, instabilidade geopolítica. Mostrar presença mesmo em tempos difíceis será essencial. Consumidores estão mais empoderados, todos são produtores de conteúdo. Marcas precisam ter clareza de valores e estarem dispostas a perder parte do público ao defendê-los. O risco maior é não ter posicionamento claro.

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