Relatório divulgado em fevereiro pela Fortune Business Insights projeta o Aftermarket Automotivo global saltando de US$ 443,12 bilhões em 2025 para mais de US$ 604 bilhões em 2034, com um crescimento médio anual ao redor de 3,5%. Isso significa dizer que se trata de um setor estruturalmente sólido, sustentado por uma frota envelhecida, ciclos de manutenção inevitáveis e um consumidor cada vez mais confortável em pesquisar e comprar peças também no ambiente digital. Não há promessa de explosão, mas sim de constância. É um crescimento orgânico, apoiado na própria natureza do negócio de reposição: quanto mais veículos circulam e quanto mais tempo permanecem em uso, maior é a demanda por itens de giro como componentes para freios, suspensão, ignição e filtros, sem considerar reparos mais complexos – e caros – também decorrentes da elevada quilometragem dos veículos. É um mercado grande demais para ser volátil no agregado — e maduro o suficiente para crescer mesmo em cenários econômicos moderados, aquilo que chamamos de “resiliência”.
O contraste com o Brasil, contudo, é revelador. Por aqui, a mesma lógica estrutural existe — nossa frota também envelhece e o reparo não pode ser eternamente adiado —, mas os indicadores de curto prazo contam uma história mais nervosa. Dados recentes publicados no Novo Varejo Automotivo, especialmente a partir dos levantamentos do After.Lab, mostram um varejo que oscila com intensidade: semanas consecutivas de retração em compras e vendas, percepção de desaceleração regionalizada no Sudeste e no Sul e um comportamento defensivo de estoque. Ao mesmo tempo, o VIES aponta uma desaceleração importante na pressão de preços ao longo dos últimos anos e uma melhora gradual nos indicadores de abastecimento. Ou seja, o ambiente inflacionário perde força, mas o varejista continua cauteloso — compra menos, gira menos, protege caixa.
Essa combinação cria um paradoxo interessante. Enquanto a Fortune descreve um mercado global que avança apoiado na previsibilidade da reposição, o Brasil revela como a previsibilidade estrutural pode ser “atropelada” pelo ciclo econômico. Quando renda e crédito apertam, o consumidor alonga a manutenção, substitui parcialmente, busca marcas alternativas ou posterga o reparo. O resultado aparece imediatamente no balcão. As compras do varejo recuam, o estoque encolhe e o risco de ruptura aumenta. E ruptura, no aftermarket brasileiro, tem custo alto: o cliente que não encontra a peça muitas vezes resolve a urgência em outro canal.
Por outro lado, é justamente nesse ambiente que a agenda global ganha relevância estratégica. A digitalização, apontada como vetor de crescimento internacional, no Brasil não é apenas conveniência — é ferramenta de eficiência. Sortimento inteligente, integração com distribuidores, precificação dinâmica e presença forte em marketplaces deixam de ser diferencial e passam a ser amortecedores de volatilidade. Se a tendência global indica crescimento sustentado, no Brasil ela se traduz na necessidade de ganhar produtividade para sobreviver aos ciclos.










