A distribuição de autopeças tem conseguido manter, em média, algo entre 40% e 50% de seu faturamento normal mesmo em dias de confinamento. Fontes ouvidas pela reportagem do Novo Varejo revelam que algumas empresas trabalhavam com expectativa de faturamento próximo de zero a partir da metade de março, mas a demanda de segmentos como delivery, tanto de carros quanto de motos, acabou ajudando. Também contribuiu o fato de as oficinas mecânicas continuarem de portas abertas. As equipes de vendas permanecem ativas e as áreas de logística estão em funcionamento, atuando no sistema de entregas. Apesar disso, em razão das dificuldades impostas a toda a cadeia pelo isolamento social, em geral o resultado na distribuição tem sido o prejuízo. Mesmo assim, muitas empresas optaram por manter a remuneração dos funcionários em 100%, não aderindo à possibilidade aberta por Medida Provisória do Governo Federal que autoriza redução de jornada e salários ou suspensão dos contratos de trabalho.
As empresas que têm caixa estão utilizando esses recursos para financiar as operações. Já aquelas que precisam recorrer aos bancos têm uma preocupação a mais para administrar, uma vez que as instituições reduziram o acesso ao crédito e estão vendendo o dinheiro muito mais caro. Se antes as taxas bancárias estavam no patamar de CDI mais 10% a 15%, agora subiram para CDI mais 80%. O jeito tem sido remanejar estoques, verificando itens de baixa demanda que podem virar dinheiro e analisando o que não será mais resposto.
Outra ação importante é buscar o apoio das indústrias fornecedoras. No entanto, nesse quesito, a conhecida falta de união no segmento representa um obstáculo às ações coordenadas que poderiam resultar em mais benefícios para todos. Um executivo de uma grande indústria contou ao Novo Varejo que existe por parte do fabricante o desejo de ajudar a rede de distribuição, no entanto não é possível atender a todos e está sendo feita uma análise criteriosa para priorizar as parcerias mais importantes nesse momento. Como boa parte das indústrias continua em férias, a negociação se torna ainda mais desafiadora. E, para piorar, segundo um distribuidor que falou com nossa reportagem, há indústrias anunciando a perspectiva de aumento nos preços em razão da elevação do dólar.
Neste cenário, discutir de forma unificada procedimentos padronizados para a prorrogação dos pagamentos em todos os elos ao aftermarket significaria atender a uma demanda generalizada. Mas não é o que acontece. A reportagem do Novo Varejo teve acesso ao parcelamento oferecido por uma grande indústria, que prorrogou para o final de abril sem a cobrança de juros as duplicatas vencidas na primeira quinzena do mês; já as que vencerão na segunda quinzena de abril poderão ser pagas até o final do mês com desconto. Mas, no geral, as prorrogações conseguidas pelos distribuidores tem incidência de juros que variam de meio a 1% ao mês. Quando não são concedidas as prorrogações, normalmente a justificativa apresentada é a negativa da matriz.
Os pedidos de prorrogação por parte dos clientes varejistas também são muitos e os distribuidores têm procurado atender na medida do possível, em boa parte dos casos concedendo um prazo de 30 dias que pode ser prorrogado conforme o andamento das negociações. E de negociação individual em negociação individual, cada um vai se virando como pode e contando, acima de tudo, consigo próprio. Poderia ser diferente. Mas a desindividualização ainda não se tornou uma política no aftermarket automotivo.