Follha de S. Paulo
De acordo com o sindicato de trabalhadores da indústria automotiva norte-americana, se um novo acordo não for fechado até as 23h59 de amanhã, a United Auto Workers (UAW), organização que representa os empregados, promete declarar uma greve histórica na sexta (15) contra Ford, GM e Stellantis. Seria a primeira vez que as três montadoras veriam seus trabalhadores cruzarem os braços ao mesmo tempo.
Nas últimas semanas, o sindicato tem promovido “ensaios de piquete” e, na segunda (11), abriu as inscrições para trabalhadores em greve receberem um pagamento de US$ 100 por dia —o sindicato tem um fundo de US$ 825 milhões, suficiente para uma paralisação de 11 semanas, segundo estimativas.
Mais que maiores salários e melhores condições de trabalho, o sindicato quer garantir que os trabalhadores não sairão perdendo com a transição da indústria para a produção de veículos elétricos.
A nova tecnologia exige menos mão de obra do que carros movidos a combustíveis fósseis —uma redução que chega a 30% do quadro, segundo estimativas do setor. Funcionários de fábricas de baterias, muitas delas comandadas por empresas estrangeiras, ou por americanas em parceria com estrangeiras, também ganham menos, e muitos deles não são sindicalizados.
Com sede em Detroit, a UAW representa hoje 143 mil trabalhadores do setor. No comando está Shawn Fain, escolhido em março na primeira eleição por votação direta na história da entidade. Ele derrotou nomes tradicionais do movimento por uma diferença de menos de 500 votos, prometendo uma postura mais dura do que seus antecessores.
Na lista de demandas do sindicato para as montadoras, estão um aumento salarial de 46% ao longo dos próximos quatro anos, proteção dos ganhos contra a inflação, fim dos contratos temporários e o retorno de contribuições para planos de aposentadoria, assim como da cobertura de plano de saúde para os aposentados.
A UAW surfa na onda do impressionante mercado de trabalho americano no momento —a taxa de desemprego está em apenas 3,8%. O cenário é o oposto daquele registrado na crise de 2007/2008, que derrubou o setor e obrigou os trabalhadores a fazerem uma série de concessões —que eles tentam reverter agora.