O carro conectado e suas (muitas) consequências -

O carro conectado e suas (muitas) consequências

Há uns 20 anos este texto seria absolutamente incompreensível para qualquer leitor. Hoje, os carros conectados e suas consequências já fazem parte do dia a dia de todos nós.

Duas notícias bastante interessantes divulgadas nas últimas semanas chamaram a atenção de quem acompanha a evolução das tecnologias de conectividade nos automóveis.

A primeira delas é quase, por assim dizer, um escárnio. Em 29 de agosto, a Ford Global Technologies, subsidiária de pesquisa e desenvolvimento da montadora norte-americana, pediu a patente de um recurso para monitorar todas as conversas que ocorrerem dentro dos veículos da marca. O argumento é conhecer os hábitos dos clientes e, assim, direcionar a eles mensagens publicitárias personalizadas nas centrais multimídia dos carros a partir da detecção, por exemplo, de palavras-chave. Oi?

A espionagem a céu aberto – ou capota fechada – foi tema de reportagem da conceituada revista especializada MotorTrend, que detalhou, ainda, que o sistema será capaz de usar dados do GPS e do ADAS (Sistema Avançado de Assistência ao Motorista) para obter informações sobre a localização em tempo real do carro, sua velocidade, entre outros parâmetros. Também captará os comandos de voz dados pelo motorista. Recentemente, na edição 438 do jornal Novo Varejo Automotivo, escrevemos um editorial sob o título “Você todo dia no Big Brother”. Taí!

Em resposta à reportagem, a montadora esclareceu que a patente não significa necessariamente que o sistema será implementado e que os interesses do cliente serão colocados sempre em primeiro lugar. Então tá. A outra notícia divulgada pela imprensa internacional e também no Brasil foi a descoberta, por parte de um grupo de hackers que se autodenominam “éticos”, de um caminho para acessar dados e até funções operacionais de determinados automóveis da marca coreana Kia via portal de conectividade. Ignição e fechaduras de portas estariam entre as funções sujeitas a manipulação externa.

A montadora diz que o problema já foi corrigido. Mas não é essa a questão principal. O crescimento da frota de veículos conectados trará consigo uma nova vulnerabilidade a que os motoristas ficarão sujeitos. É verdade que os fabricantes de carros, softwares e hardwares se empenham em fechar essas portas com o uso de muita tecnologia – isso impacta também o acesso dos reparado – res às informações de diagnóstico. Mas também é fato que o crime está sempre um passo à frente. Poderosos sistemas bancários e de governos – entre tantos outros – não raro são surpreendidos por estanhos e mal-intencionados visitantes, apesar das fortunas investidas em segurança cibernética. Com os carros não será diferente. A vida como ela é. Há uns 20 anos este texto seria absolutamente incompreensível para qualquer leitor. Hoje, os carros conectados e suas consequências já fazem parte do dia a dia de todos nós. Estamos começando a experimentar os desdobramentos dessa tecnologia. Todo mundo está de olho na conectividade e querendo tirar o melhor proveito dela. Portanto, cuidado motorista. No fim das contas, você será sempre a parte mais fraca e vulnerável desse movimento.


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