Funcionário da Dedé Autopeças, em Belo Horizonte, Almir de Oliveira trabalha há 38 anos no segmento
Por Lucas Torres (jornalismo@novomeio.com.br)
Quase como em um casamento de longa data que se sustenta mesmo quando acabam todas as possibilidades de surpresa e as rugas que chegam já não têm remédio, a relação entre um apaixonado por carros e seu xodó é ancorada, sobretudo, na cumplicidade construída por meio de memórias inesquecíveis. Tais laços, não raramente, fazem com que o proprietário de um veículo desses faça dele sua prioridade por longos anos – ainda que tenha condições de adquirir um modelo mais novo e confortável.
A fim de descobrir e contar algumas dessas histórias, o Novo Varejo criou há sete edições a série Meu Xodó – um espaço para que os balconistas de autopeças possam narrar suas relações afetivas com seus automóveis.
O personagem da edição de maio vem da cidade de Belo Horizonte e, com 38 anos de balcão, é um veterano no varejo de reposição automotiva.
O personagem
Almir José de Oliveira, de 58 anos, ingressou na carreira de balconista de autopeças aos 20 e nunca mais saiu. Depois de passar por alguns varejos do setor, Oliveira chegou à Dedé Autopeças no ano de 2006 e, mesmo aposentado, segue sendo um dos funcionários mais dedicados da empresa mineira.
“Acredito que um dos segredos para a eficiência e a longevidade de um balconista é sua paixão por automóveis em geral. Só assim você consegue manter o nível de curiosidade necessário para permanecer atualizado nas questões que o mercado exige”, afirma o balconista, antes de complementar ressaltando uma característica peculiar do mercado atual. “Ainda mais hoje em que o segmento ganhou todo esse dinamismo. Cada dia muda uma coisa e você, como balconista, precisa acompanhar”.
Além do sustento da família durante quase quatro décadas, a profissão de Oliveira deu a ele a oportunidade de adquirir o veículo que viria a ser seu xodó. Em 1990, durante um processo de recisão trabalhista, o profissional usou parte do valor recebido para comprar um Chevette 1985 1.6 a álcool. “Eu sempre tive uma queda por Chevettes. Antes dele tive um 74 e um 78. Apesar disso, o modelo nunca foi o carro dos meus sonhos. Era, na verdade, o que eu tinha condições de comprar”.
O xodó
Adquirido por um valor que equivalia a R$ 1.500 à época, o Chevette se tornou de imediato o “pau pra toda obra” da família. Era utilizado para trabalho, passeio, locomoção com os filhos nos casos de emergência e visitas rotineiras à casa da sogra, que morava a 83 km da capital mineira, em Congonhas do Campo.
Foi em uma das viagens para o município do interior do estado que Oliveira vivenciou uma dessas histórias que marcam a relação de qualquer proprietário com seu xodó. “Tive de fazer uma viagem noturna para Congonhas do Campo. Chovia muito. A estrada não era duplicada e numa curva, com muita água acumulada, o carro parou. Em poucos minutos a água invadiu o carro e eu não tive outra alternativa senão abandoná-lo ali. Fui para o outro lado da pista e todo molhado observei meu Chevette no meio daquele aguaceiro sem que eu pudesse fazer nada até que, de repente, um caminhão que fazia a curva decidiu parar, me chamou para ajudá-lo a amarrar a corda no para-choque do meu carro e me rebocou até um lugar coberto. Ali esperei por cerca de 30 minutos, limpei a tampa de distribuição do carro e ele, de forma surpreendente, funcionou, me permitindo chegar à casa da minha sogra antes das 22 horas”.
Oliveira reforça que histórias como essa só enfatizam a importância do Chevette em sua trajetória, sobretudo pelo fato de os anos 90 terem sido difíceis para o trabalhador brasileiro em geral, de modo que ter um carro durável e valente era fundamental para a saúde financeira da família.
Além da durabilidade e valentia, o Chevette tem como característica o baixo consumo de combustíveis e a facilidade de manutenção, atributos que reforçam seu caráter de pau pra toda obra.
Os anos 2000 trouxeram alívio e progresso financeiro para o balconista da Dedé Autopeças e deram a ele a possibilidade de adquirir carros mais modernos e confortáveis, como o Fiat Bravo 1.6 que utiliza para passear com a família. Mas também um Jeep 1976 todo original.
Ainda assim, nenhum outro veículo irá superar o apreço que Almir José de Oliveira tem com o Chevette 1985, com o qual gastou cerca de R$ 6 mil há dois anos para reformar itens como pintura, borracha de porta, bancos – além de instalar vidro elétrico. “Ele pra mim é tudo. Não me desfaço dele de jeito nenhum. É com certeza meu xodó!”.