Diferente de outros setores, empresas que trabalham com peças importadas alegam impossibilidade de absorver aumento dos custos provocados pelo cenário cambial
Por Lucas Torres (jornalismo@novomeio.com.br)
A escalada de valorização do dólar tem causado um ambiente de grande incerteza e temor na economia mundial – sobretudo nos países emergentes, que desde março de 2018 convivem com altas diárias de até 2% da moeda norte-americana em relação ao dinheiro doméstico.
A conjuntura se deve a duas razões primordiais: a alta dos rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro dos Estados Unidos, que alcançou seu maior patamar desde 2011; e o aumento das taxas de juros promovido pelo Federal Reserve, o Banco Central de lá.
A esses fatores se soma a expectativa mundial por uma guerra comercial entre EUA e China que, caso ocorra, pode causar uma desaceleração ainda maior na já titubeante economia chinesa e, por conseguinte, se configurar em um golpe duro para boa parte das economias emergentes – fator que pode provocar uma disparada ainda maior do dólar nesses países.
De acordo com o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, esse ambiente externo propício para a desvalorização das moedas dos países emergentes é, no Brasil, agravado por uma série de fatores internos. “O real tem sido especialmente afetado pela dissolução global de posições em mercados emergentes, porém fatores locais como a ausência de reformas de caráter fiscal, a recente paralisação dos caminhoneiros e as incertezas no âmbito político”, aponta o economista.
Para Vieira, o momento de turbulência vivido no país possivelmente só se converterá em certa estabilidade após as eleições presidenciais – e ainda a depender do presidente eleito, sua capacidade de realizar reformas e transmitir confiança para população e mercado –, o que exige do Banco Central postura paciente e conservadora. A ideia, segundo o economista, é intervir o menos possível a fim de evitar reações bruscas que possam gerar sentimento de pânico nos investidores e piorar ainda mais a situação.
Entre o mundo ideal de calma e controle sugerido por Vieira e a realidade de diversos nichos de mercado que exigirão uma resposta do BC para a questão cambial pode haver, no entanto, um hiato.
A pretensa recuperação econômica que ocorria até a paralisação no segundo trimestre dava um leve impulso ao consumo agregado e ao PIB, todavia, os efeitos conjunturais combinados com a inflação embutida em produtos importados farão com que os setores mais importadores, ao contrário dos exportadores, tendam a sofrer, principalmente em termos de custos e retornos.
Jason Vieira avalia que os importadores – em razão, entre outros fatores, da considerável desaceleração no consumo – não poderão repassar na íntegra o acréscimo dos custos ocasionado pela desvalorização do real. “É simples, o repasse neste momento não pode contar com toda a desvalorização, portanto, é de se esperar perdas na lucratividade”.
Por fatores como este, Salomão Quadros, superintendente adjunto para Inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), aponta para um impacto da alta do dólar ainda pequeno no varejo, com base nos dados de junho do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI). Segundo o estudo, é possível ver os reflexos da alta do dólar nos materiais para manufatura, no atacado, mas o repasse para o varejo deve seguir ocorrendo de forma inibida.